domingo, 25 de dezembro de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 15

TELEVISÃO
As manifestações de curiosidade mostram-se de variadíssimos modos. Desde o inicio da humanidade que o homem tem procurado satisfazer as suas necessidades através dos recursos existentes. Quando são insuficientes ou mesmo incapazes de proporcionar-lhe o alcance desejado, recorre à sua criatividade e reinventa os utensílios e equipamentos as vezes necessárias até conseguir atingir a sua meta.

A imagem, rápido se tornou o ícone que melhor favorece o registo da pegada humana sobre o planeta. As pinturas rupestres são importantes para a interpretação e compreensão do que moveu o homem a fazer representações de grandes animais, da caça e de rituais de dança. Permite-nos a aproximação a estas sociedades primitivas que tinham um modo de vida muito diferente da atualidade. Hoje é-nos difícil viver sem um conjunto de equipamentos a que nos habituámos e que fazem parte do quotidiano. Falo de entre outros da televisão.

A análise do comportamento do homem durante a passagem do tempo obriga que consigamos contextualizar a sociedade mediante o seu desenvolvimento olhando também para os recursos que tinham à sua disponibilidade. Não sabemos em concreto como o homem ocupava o seu tempo total. Sabemos que não tinha janela virada para o outro lado do mundo nem a cores nem a preto e branco. Sabemos que a projeção de imagens e a televisão trouxeram uma outra velocidade ao conhecimento. A leitura como janela de descoberta do mundo e os contos de boca em boca deram lugar à imagem viva, rodada nas frames e posteriormente apresentada no pequeno ecrã com ou sem retoques de efeitos especiais.

Na memória ficaram pequenos momentos marcantes para uma geração. A parede da igreja matriz serviu algures nos anos cinquenta do século XX para receber a projeção de filmes. Dizem que o Halibaba e os seus quarenta ladrões saltaram dunas e fecharam portas através da parede da sacristia. Onde hoje jaz o café Marialva improvisava-se a plateia para assistirem num género de “Drive in” beirão a autênticas estreias cinematográficas impulsionadas por um clérigo de quem não souberam dizer-me o nome.

No circuito de desenvolvimento Adolfo Vieira de Brito contribuiu com o primeiro televisor. Este foi um grande acontecimento de viragem nos hábitos da população. Como disse, a curiosidade é intrínseca à condição humana. Rapidamente o televisor se tornou uma atração, que se espalhou pelas povoações em volta da Casa do Povo de São Pedro de Alva. Diz-se que o Bonanza tinha apoiantes nas suas cavalgadas, que sem grandes efeitos cinematográficos conseguiu espicaçar a mente dos mais novos. Muitos por necessidades básicas de sobrevivência, partiram também eles na sua cavalgada. Não tanto por terras americanas mas antes para terras dos desfeitos impérios europeus, necessitados de mão-de-obra e força de braços e para terras africanas sem necessidade de derrame de sangue inocente e desconhecedor da dura realidade dos trópicos, muito diferente de qualquer safari mostrados nos atuais canais generalistas de televisão.

A mudança resultou dos horários da emissão. Não era alargada a todo o dia no entanto conseguia mover a população. De tal modo que os trabalhos sazonais e de troca direta em que todos participavam nos trabalhos de todos num género de comunidade de trabalhos agrícolas foram relegados para segundo plano. No período em que a emissão estava no ar deixou de haver interesse nas descamisadas, filhoses com mel dadas pelo dono do milho e noutros atrativos gastronómicos. O convívio sofreu alterações. A alegria simbolizada hoje pelo rancho folclórico foi lentamente substituída pelas comédias mais ou menos sérias que saltavam do pequeno ecrã. A realidade dos beirões começou a ser confrontada com outras realidades existentes, desconhecidas em grande medida até ao momento, e que lhes eram apresentadas pela programação onde se incluía o serviço noticioso. A distância parecia muito maior do que hoje é e para tal contribuía também a dificuldade que era imposta pelas acessibilidades.

Continuando na linha do desenvolvimento os Café Neves e Marialva tiveram um papel importante na fases seguinte. Olhando para o seu interior percebia-se a que classe social pertenciam os seus clientes. Ambos, fechados atualmente, apresentaram novidades à população. A famosa bica era vendida e partilhava o seu espaço com o velho copo de 2 ou 3 tirado da pipa de carvalho atrás do balcão. Ainda não existia a ASEA, não que queira dizer que a higiene não estava de acordo com requisitos de um estabelecimento comercial mas antes, que os hábitos de comércio eram diferentes e as regras eram outras.

A televisão estava presente nos dois estabelecimentos. Foram colocadas numa posição sobranceira às cabeças das pessoas sentadas e desejosas de que começasse a sua série preferida. Recordo-me, nos anos oitenta dos Três Duques, do Dallas, etc. Por vezes não havia unanimidade no canal, mesmo quando só eram dois mas o que importa é que a caixinha já fazia parte de todos.

O que começou por ser uma unidade é hoje uma quantidade diferente em cada habitação. Pode haver uma só ou várias espalhadas pelas diferentes assoalhadas. Neste contexto um ponto importante é fazer referência à TDT (televisão digital terrestre). O amadurecimento da tecnologia chegou a um estádio em que todos somos afetados. O velho sistema analógico de difusão vai ser substituído pela difusão digital e quem quiser continuar a ver os seus programas preferidos terá de acompanhar o desenvolvimento da caixinha. Se não tem televisão a pagar seja por cabo ou por satélite terá de efectuar as alterações convenientes e que podem passar pela compra de equipamentos que façam a descodificação para os aparelhos de televisão que cada um possua em casa e que não tenham vindo de fábrica preparados para a TDT.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 14

Biblioteca Itinerante

As feiras do livro colocam-nos em contacto com as novidades literárias e também permitem ao leitor aproximar-se de alguns escritores. A mística que separa a escrita do seu autor é encurtada pelas várias sessões de autógrafos porém alguns escritores necessitam do distanciamento para assim conseguirem alcançar o pleno prazer e empenho nas suas letras. Os livros serão sempre o resultado de tudo isso embora sinta que a relação autor – escrita – leitor esteja a desprezar a componente do autor. Encontramos cada vez mais cópia, plágio e usurpação de autoria.
Tenho também dificuldade em compreender o porquê da ação do homem quando vejo livros a serem despojados do seu real valor quando são abandonados no papelão para reciclagem. Assim, a sua missão de registo de pensamentos e da evolução humana perde-se. Ficam esquecidos à espera de serem transformados em papel de embrulho ou em caixas para mudanças.
 A origem do livro antecipa-se à antiguidade clássica e permitiu à escrita alcançar o leitor de um modo mais fácil em fazer e transmitir a mensagem. Poderemos dizer que as tabuletas de argila ou pedra foram os precursores do livro? Certamente foram os primeiros suportes da escrita. No entanto os Volumen, cilindros de papiro, são o primeiro formato assemelhado a um livro que, ao ser desenrolado, permitia a leitura do seu conteúdo e poderia atingir sete metros de comprimento.
O pergaminho, couro de bovino e de outros animais, foi inventado na cidade de Pérgamo na Ásia menor. Veio substituir o papiro e o seu uso atravessou a Idade Média. A sua maior resistência permitiu o desenvolvimento do formato Códex que substituiu o Volumen. O livro tornou-se um conjunto de folhas mais fáceis de costurar em couro.
Ao Ts’ai Lun, alto funcionário da Corte chinesa do imperador Chien-Ch’u da dinastia Han (206 AC a 202 DC), é atribuída a invenção do papel no ano 105 DC. Foi matéria conseguida através do esmagamento e cozimento de fibras. A introdução na Europa desta nova superfície de trabalho está relacionada com um rapto executado por Árabes a dois chineses que, em troca da sua liberdade, revelaram o segredo que tinha seis séculos. Os europeus começaram a utilizá-lo dez séculos depois da sua invenção.
O novo formato de livro surgiu da década de 70 do século XX. Michael Hart é conhecido por ser o fundador do projeto Gutemberg. Consiste em tornar os tradicionais livros em formato digital. O primeiro texto digitalizado foi a Declaração de independência dos Estados Unidos da América. Recentemente a empresa Apple lançou no mercado de equipamentos electrónicos de uso individual o Ipad onde num espaço de uma palma da mão podemos armazenar uma biblioteca. No entanto, o trajeto que a criatividade humana percorreu na satisfação das suas necessidades, fruto da sua própria evolução, comporta um conjunto de etapas antecedentes e importantes para hoje conseguirmos virar uma página com um simples gesto de arrastar uma imagem num monitor. De entre estas etapas poderemos incluir o projeto da Fundação Calouste Gulbenkian de levar até junto de todos os carenciados no último quarto de século XX, o bem precioso de leitura a custo zero para o leitor. O interessado poderia às quintas-feiras, se a memória não me engana, deslocar-se junto da escola primária e aguardar durante a tarde que chegasse a carrinha Citroen de faróis redondos, cor de tijolo e de laterais caneladas. De lá de dentro saltavam histórias e todo um mundo de lugares e regiões que, provavelmente não terei oportunidade de visitar mas que me eram apresentadas na experiência vivida, descrita ou inventada pela mão de génios, candidatos a ídolos tal como Herger e a sua obra Tintin ou mesmo Julio Verne e as suas viagens. Encontrávamos também os clássicos da literatura portuguesa e internacional. O motorista no momento em que abria a porta da sua Biblioteca Itinerante transformava-se numa espécie de Atticus, o homem romano com grande sensibilidade para o mercado das obras literárias, que no caso português tinha a afectividade e a proximidade para disponibilizar livros de acordo com o interesse de cada cliente. O preço era o laço que se estabelecia entre o funcionário e o leitor em que este, se comprometia a devolver o livro nas mesmas condições de manuseamento em que o recebeu e no prazo estabelecido, podendo sempre ocorrer um prolongamento se fosse oportuno.
Na feira do livro de Lisboa do ano passado fui assaltado no pensamento por uma recordação ao ver novamente a mesma carrinha Citroen no centro da cidade em que o Atticus era uma Senhora sorridente com a dupla função de apresentar para venda as obras editadas pela Fundação Calouste Gulbenkien e de refrescar a memória das pessoas ao expor a viatura, ícone de uma geração e do povo do interior português profundo onde as bibliotecas escasseavam assim como, a capacidade económica para considerar o livro um bem essencial à vida quotidiana.
É impossível fisicamente vermos Steve Jobs sentado na Citroen a abrir-nos a porta com a sua invenção por catálogo na mão mas poderemos visualizar que é possível o Ipad transportar até às gerações vindouras a missão de registo de todo o trajeto evolutivo das espécies.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 13

O JORNAL DO TEMPO
 

O tempo tem algo em si efémero quando passa rápido. É recorrente pois nele temos de fazer e refazer o quotidiano como se fosse uma luta de avanço – retrocesso – evolução. É também eterno. Percorremos a sua linha e só vislumbramos o segmento de recta onde nos encontramos… do lado de cá da linha do horizonte. Perdidos?...

Por vezes é essa a sensação de perdidos na imensidão do tempo a viver os segundos como se fossem as partes mais importantes e existentes entre os ponteiros do relógio.

Nas conversas saudosistas podemos descobrir postais ilustrados do passado que se revelam preciosidades.

Decorreu meio século… quem o viveu afirma ter passado rápido. Muito mudou. Algures no tempo a vila era percorrida por bicicletas e talvez um automóvel. Sentado no chafariz, com tantas recordações impregnadas no velho granito, olho em volta e não há espaço disponível para tanto automóvel. Fazem falta as bicicletas características da vila… o tempo corre…

As memórias por vezes dão sacudidelas dentro do baú onde as guardo… “o autocarro das 13 horas pára em frente do Café Neves. Enquanto os barulhentos passageiros se empurram para sair, o motorista atira o rolo de jornais. Notícias frescas”, dizia… Algumas vezes encharcadas pela chuva. Olho em frente e vejo a primeira papelaria da vila ainda aberta. Provavelmente a D.ª Arminda estará à espera do fim do dia para tirar as molas das revistas e regressar a casa. Recebia sob encomenda o jornal “Blitz”. Dois exemplares, um para mim, outro para o Mendes. Sentíamos a música estrangeira. Lia-se e desejava-se poder ouvir… As minhas bandas começam a ter alguma idade. Poucas se salvaram das garras do tempo empoeirado.

As teias de aranha nas janelas das casas fechadas estão mais amarelas. Alguns rostos deixaram de aparecer no adro. O silêncio nocturno propaga a sua existência pelas ruas iluminadas. A luz, que à noite poucos utilizam, ilumina as pisadas do tempo rodado no relógio, que apagou do quotidiano o murmúrio do convívio social.

O fantasma da noite apoderou-se das sombras que parecem ser os únicos vagueantes no centro. Noutros tempos as sombras escondiam-se para darem lugar aos transeuntes perturbadores de sonos leves. O tempo mostra-se agora mais passivo apresentando a noção de que é mais longo e de que temos… mais tempo. Engano?...

Um talvez não é suficiente quando olhamos o tempo percorrido e nele encontramos traços de pegadas que ainda reconhecemos. Não é suficiente quando corremos para um espaço que ao longe se ilumina porque queremos estar lá e quando nos aproximamos vemos a luz a enfraquecer e cresce-nos a sensação de perdido, confundido pela certeza de ser aquele o seu aposento. É engano quando o tempo esconde o passado sob um presente que parece em tudo diferente. Luto por não desconhecer esta realidade e tento acompanhar com um sorriso.

Hoje sentado, na pedra onde sempre me sentei, transporto-me sobre esse segmento de recta até à direita do futuro. Faz-me acreditar que é possível continuar a redefinir as recentes pegadas.

O “Blitz” já não é jornal, é revista. As bicicletas foram substituídas por automóveis. Os rostos mais velhos retiraram-se, mas a pedra continua polida e daqui é possível um olhar de 360 graus.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA 12

Praia da Foz do Alva

A água corre lenta sem vontade de alcançar o seu destino e a vida vai a galope agarrada à crina do nosso desalento ao olharmos o futuro próximo sem um vislumbre agradável daquilo que nos espera. O desnorte ganha forma todos os dias. Já é possível dizer-se todo o tipo de barbaridades sobre a matriz do povo e do Estado-nação vivo, mas adoentado a quem querem arrancar pedaços aos seus pilares e, supostamente, verem desmoronar-se. Os que estão fora aguardam abutremente. Os que estão dentro reviram o branco do globo ocular na procura tresloucada de justificar a responsabilidade noutros costados. De repente o que é nosso tem valor e venha de lá o comprador de produtos nacionais.

Certo… por um flash das recordações daquelas mais remotas e escondidas trago à conversa momentos alegres, quando não havia carro em casa, quando não sabia o que era uma agência de viagens e que julgava não conseguir viajar de avião. As férias faziam-se em troca de espaços com familiares das grandes cidades e vice-versa. Olho para a distância tempo como sendo uma eternidade percorrer o que se consegue em duas horas pela autoestrada.

Em dia de semana nos meses de verão o primeiro autocarro da manhã transportava-nos para além da nossa fronteira diária como se fossemos dar a volta ao mundo no entanto, só dobrávamos a esquina remota da serra. As mulheres levavam as trouxas de roupa à cabeça e os homens o cesto do farnel ao ombro. Eu seguia pela mão disponível. Recordo-me que detestava os pacotes de 100ml de leite com morango. Ainda hoje é-me impossível o cheiro. O preço mais barato obrigava à compra. Decerto havia mais quem não gostasse porque estava sempre mais barato. Era raro conseguir do orçamento um pacote de waffles cobertos com chocolate e que tinham um pacote dourado.

O autocarro começava a rolar às sete e quinze minutos e nós esperávamos á entrada da vila. Por vezes parecia uma sementeira de cogumelos pois, ainda era época de colocar carga na grelha do tejadilho. Naquelas manhãs não havia birra nem sono. A descida para o rio era empolgante. A paragem depois da ponte era apertada e mal permitia a saída. O trânsito parava, o motorista resmungava porque tinha de subir e atirar as trouxas da roupa. Sentia pressão por as restantes viaturas estarem bloqueadas.

O rio estava já ali mas era impossível saltar logo lá para dentro. A água estava ainda gelada e tínhamos de ajudar a encontrar a melhor pedra para que a roupa fosse lavada rapidamente e as mulheres pudessem refrescar-se a meio da manhã nas águas límpidas e despoluídas do Alva. Os homens procuravam lenha nas bermas do rio e preparavam uma fogueira para quando fosse hora a acenderem e fazerem os grelhados. Alguns arriscavam e só comiam o que pescavam. Nem sempre os dias eram de fartura.

O melhor lugar para dar saltos era debaixo da velha ponte que ruiu por incúria técnica e por falta de manutenção durante a construção da nova estrada. O pedregulho ficou para sempre escondido. Era o local onde se saltava e á noite se contavam estrelas. Era um ponto de convívio da Beira Litoral Interior. As dificuldades de orçamento familiar não permitiam ambientes luxuriantes. O descanso era alcançado através de espaços naturais, por vezes perto da habitação. Onde hoje, provavelmente, existem pedras sujas e abandonadas perpetuaram-se momentos de cariz naturista, natural e normal por uma comunidade, que caminhava há trinta anos para uma abertura compassada e pouco preocupada com as dificuldades deste nosso quotidiano. Forçosamente prescrevo uma realidade adversa a futuros caminhos delirantes e autistas. Saudosamente deverei percorrer caminhadas a tentar colocar os meus pés sobre pegadas sólidas na tentativa de encontrar as pedras onde outrora as nossas mães colocaram roupa ao sol, enquanto nos atirávamos para a água corrente.

O enrolar das trouxas representava o regresso ao ponto de partida. Hoje o retorno à circunstância dessa época será penoso e obrigará a um refazer mental da realidade e à reposição concreta do quadro social, do qual ao sairmos deveríamos ter tido a preocupação de não subjugarmos o futuro a uma vontade que nos é alheia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A IMPORTÂNCIA da DEMOGRAFIA do CONCELHO de PENACOVA

            Compreender um concelho e a sua realidade demográfica comporta a necessidade de um conhecimento concreto e aprofundado da sua população. Consequentemente, a sua estratificação, evolução e características sócio-culturais obrigam a fazer-se um enquadramento em perspectiva do seu crescimento na região onde está inserido.
O estudo sobre uma população encontra o seu produto no número total de indivíduos (homens e mulheres em conjunto e em separado), nos grupos etários (jovens, adultos e idosos), nos nascimentos, óbitos, fluxos de imigração e de emigração. Daqui resulta a análise que permite, através de cálculo de taxas, índices e saldos, perceber quais as dinâmicas existentes na interacção dos indivíduos da população. Isto faculta a construção de possíveis cenários, que podem dar um bom contributo na tomada de decisões sobre caminhos a seguir no encontro da satisfação das necessidades da vida e do conforto das comunidades. Assim como, contribuem positivamente no apontar de um melhor curso do plano estratégico para que, no momento final, seja alcançada a eficiência e a eficácia da utilização dos recursos pois, como sabemos, são insuficientes.
População Penacova
Baixo Mondego Nut II

Total
Homens
Mulheres

1970
17278
7190
9150

1981
17351
8120
9263

1991
16748
7657
8707

2001
16725
7636
8514
340309
2011
14980
6984
7996
335399
O total de população de Penacova desde os últimos censos tem sido inferior a 20000 indivíduos. A tabela apresentada demonstra que o concelho teve um ligeiro acréscimo de população entre 1970 e 1981. Neste período estão incluídos dois acontecimentos excepcionais, que influenciaram as dinâmicas da população. O primeiro refere-se ao fluxo de entrada de população vinda dos territórios ultramarinos e o segundo refere-se à última grande vaga emigratória, principalmente para a Europa. No entanto o saldo foi reduzidamente positivo. Contabilizando os nascimentos vivos e os óbitos existiu um aumento de 73 indivíduos. Após um decréscimo de 600 indivíduos, existiu nos dez anos que sucederam alguma estabilização. Os dados preliminares dos Censos 2011 estão ainda pouco trabalhados, no entanto permitem perceber que ocorreu uma diminuição da população em 10,4% entre 2001 e 2011. Este valor revela-se preocupante sobre a questão da desertificação do município. O concelho de Penacova (Nut III) insere-se na Região Centro – Baixo Mondego (Nutt II) e esta perdeu, entre 2001 e 2011, 1,44% da sua população. Assim, verifica-se que Penacova não está a fomentar atractividade na fixação da sua população. Os movimentos pendulares, que representavam grande parte das movimentações da população para Coimbra, tornando os concelhos limítrofes regiões dormitório, não estão também a promover a fixação da população de Penacova. Os dados definitivos dos Censos 2011 irão permitir perceber concretamente as causas deste valor negativo. Será também possível saber qual a evolução da pirâmide etária do concelho. Sabe-se que em 2001 a pirâmide tinha a sua base mais estreita que o centro. Significa que a reposição das gerações não está a acontecer. Ocorreram menos nascimentos e a esperança média de vida aumentou nas mulheres de 80,8 em 2001 para 81,6 anos em 2007 e nos homens de 74,3 em 2001 para 75,5 anos em 2007. Significa que a população está a envelhecer. A soma da população jovem com a população idosa representava em 1970 41% e em 2001 34,1% do total. Estes dados são enganadores, pois sabendo que o número de nascimentos vivos por mil mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos reduziu de 73,24 em 1970 para 36,63 em 2001, será muito importante analisar os dados finais dos censos de 2011 e verificar se tendência é de redução. A verificar-se esta situação é previsível que antes de 2050 a pirâmide tenha o aspecto de um cogumelo e isso será a prova de que o estrangulamento na base produzirá efeitos de futuro muito prejudicais na estrutura populacional, social e económica.
A pirâmide etária da população de Penacova tem as características de um país desenvolvido em que naturalmente a taxa de natalidade é reduzida, o número de adultos é superior aos jovens e a esperança média de vida é grande. Estes valores acarretam um esforço sócio-económico maior porque o envelhecimento da população aumenta os encargos com reformas e pensões e faz aumentar as despesas com a saúde. Em consequência da redução de nascimentos, o grupo etário dos adultos sofre uma sobrecarga pois é a parte activa da população. Por fim a sociedade perde dinamismo por não conseguir efectuar a reposição das gerações.
Oportunamente os censos de 2011 serão a fonte de informação que ajudará à confirmação de tudo o que foi apresentado e darão um óptimo contributo no encaminhamento das decisões sobre a promoção de medidas de combate ao envelhecimento da população.

PAULO CUNHA DINIS

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 11


SER CRIANÇA



Desfolho um livro, Portugal Património, e nele descubro passagens da minha infância. Passar folha-a-folha colocou em mim a felicidade de quem vê o pedaço de terra que o viu crescer inscrito num anal de história. O primeiro pensamento foi de que cresci numa vila com património de valor, referência arquitectónica e cultural.

De dentro do livro saltaram um sem número de momentos e memórias que me fizeram parar o tempo! Por breves segundos lutei comigo no sentido de me obrigar a ser novamente criança. Tão grande que parecia ser a vila. Imaginava como seriam os espaços além daquilo que me era permitido ver. Queria ir pelo meu pé, mas tinha o espaço controlado e os minutos contados. Nem todos estão abertos ao espraiar do mundo da criança. A imaginação ultrapassa todos os entraves.

As recordações… conseguem parar o tempo… os torrões de açúcar amarelo que a Dona Letícia Videira me deixava tirar do compartimento de madeira alinhado dentro da mercearia. Tenho ainda vontade de subir à torre da igreja e ficar lá a ver a vila em movimento. O cheiro a madeira velha e a cera que emanava da entrada da sacristia adocicava a curiosidade. Gostava de ver o que está dentro daquelas grandes arcas. Perguntei uma vez onde guardavam o presépio… tinha vontade de o reconstruir e colocar um lago com peixes por baixo do altar.

As páginas deste livro… continuam a revelar as minhas memórias, que saíram de dentro a uma velocidade estonteante. Por breves momentos quase vejo a carreira e as minhas primeiras viagens para fora do mundo circunscrito da vila. O olhar incessante para qualquer coisa… faz ainda interrogar quem não percebe o que vai dentro da cabeça de uma criança.

Os gritos de liberdade quando saíamos do recreio e imprudentemente corríamos pelas imediações da escola a jogar à bola, ai o senhor padre… o senhor doutor passa e sorri com tal reboliço à porta do seu consultório. É a alegria de uma comunidade por ter crianças todos os dias aos gritos pelas ruas.

A fruta rapinada pelo caminho. Todos à uma como se a necessidade fosse geral. Os cinquenta centavos para jogar matraquilhos no café Marialva. O giz de jogar à macaca esquecido num bolso das calças, lavadas à mão no tanque de água fria. Ainda tentei saltar ao elástico, “coisas de meninas” diziam, fez-me cair com os pés atados pela habilidade com o pé à esquerda e à direita.

A nogueira plantada no recreio da escola e, todos os anos, esperávamos para ver o que eram nozes penduradas. A separação no final de um dia de aulas em grupos consoante as aldeias… formigas saltitantes na berma da estrada.

Olhar a vida sem a responsabilidade de um adulto é decerto o enquadramento psicológico mais favorável quando se é criança.

Hoje ser adulto também é ser criança. É carregar para a imensidão deste nosso mundo o solitário estado de alma, por vezes através de recordações ou acordando o miúdo que persiste em nós… as garotices de uma adulto são a prova existencial dessa duplicidade de seres que coabitam nos nossos corpos. O emergir desse garoto é o resultado de uma luta constante, que decorre entre o decoro e a decência para quem defende a compostura alinhada.

Percorro alguns corredores com imagens da vida passada, sempre que existe a vontade saudosista da liberdade, que a idade de criança nos permite e nos ajuda a manter a sanidade da felicidade.

Poderiam existir muitas mais crianças entre nós!

terça-feira, 7 de junho de 2011

As Cinzas dos Nossos passos

Marcamos passo. A batida vai quase morta. Percorre velhos caminhos, já pisados e marcados por pés mais velhos ainda. Quem disse que a caminhada dos antepassados é um peso? Nestas vidas frágeis olhamos o horizonte e acreditamos que a sua distância não tem alcance. Fazemos acreditar os nossos pares que não conseguimos dar um salto, pedimos para nos deixarem dar um saltinho, mais curto que a distância que vai de joelho ao tornozelo. Sorrimos… quando confirmamos ser dignos de saltar alto.

A água corre alta. Lá atrás disseram-nos que o próximo redemoinho pode ser fatal. Por malícia o sábio resumiu num tormento, a volta que a água dá a um pedregulho.

O tormento fere quando olhamos os raios de sol a misturarem-se na nossa martirizada existência e a colocarem um comportamento insignificante ás sombras por nós construídas. Agarramo-nos a elas como se fossem realidades missionárias da boa ventura, que impomos ao quotidiano.

Nem Sebastião… nem Sebastiãozinho cavalga no lusitano branco… não vem acudir como alguém disse que viria pela madrugada. Onde está o papiro rasurado, talvez corrigido… finalmente, colocando no trilho certo este desventurado pedaço de paraíso repleto de madressilvas e macieiras secas.

Secas e gretadas estão as palmas das mãos de tanto escavarem e de se elevarem ao céu agreste a agradecerem um punhado de nada oferecido por um imprudente e insignificante bem-falante. Do alto da tribuna indica o caminho para vermos o nevoeiro. Temos de encontrar o nevoeiro das suas ideias e afirmar ser imprescindível ver a manhã carregada de nevoeiro, que humedece a nossa roupa e entorpece as articulações.

Agarra-me nevoeiro! Esconde-me, quero fazer parte de ti e sentir o prazer de abraçar as idiotices pensadas para um dia de inverno.

Acolhe-me nevoeiro espesso, eleva-me sobre o horizonte e mostra-me a liderança firme e fiel às promessas, que nos sussurraram em tempos.

Sem cavalo branco nem manuscrito seremos audazes… soltaremos a fumaça da queimada das velhas cartas do rei para o plebeu… fertilizaremos o solo com as cinzas e alinharemos a nova pegada. O peito nu será agraciado pela luminosidade da primavera.

Os malmequeres quererão ser a passadeira para os teus famintos pés descalços!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fora de Controlo

Sinto por vezes que estou fora do compasso. A batida do meu coração está desconexa com o ambiente que o rodeia. A arritmia perturba quem sente a vibração do fecha e abre das válvulas. Mesmo não demonstrando incomodar-me com a situação, é certo que não gostaria que ele deixasse de bater, logo agora que tenho tanta coisa enriquecedora à minha volta, talvez lá mais para a frente, talvez um dia… nem quero saber quando!

Olhar documentários na televisão portuguesa, por vezes carrega surpresas agradáveis, diria antes agridoce, pois o assunto é muito angustiante… viver treze anos agarrado à impossibilidade de se mover sozinho… treze anos sem receber uma visita… não creio que seja por vontade suprema, não creio que seja por outra vontade qualquer… creio que a própria vontade deixou de ter vontade de acreditar… envergonhou-se por não conseguir pensar mais que ainda é possível … viver.

Era giro e gratificante pedir, agora fica mais giro solicitar, que ergamos as mãos e do baixo altar em que nos colocamos e tenhamos a coragem de não acreditar que nós não temos mais força para acreditar, ou de aceitar que mesmo o infortúnio alheio é uma mais-valia para todos… sim, para todos que aceitamos o lado negro da vida como uma aprendizagem de futuro.

Sinto por vezes que o compasso sai fora de mim… empurra-me para um abismo sem igual. Força-me a acreditar na fraqueza, força-me a esvaziar-me da pouca energia que consigo armazenar para o dia seguinte.

Quem quer? Quem olha sem pestanejar?... uma imagem brutal provocada pela ira sem coragem para tentar outra coisa qualquer…  positiva… quem quer olhar?… olhar mesmo para a verdade da  faceta selvagem de pai desvairado que aniquila sem clemência… para consigo essencialmente.

As letras custam a fixar-se na folha, tenho repugna em colocá-las lá. Quero escrever sobre o lado sombrio do meu semelhante, sinto que tenho de o fazer… mas repugna-me.

Sinto a pancada da minha batida. Sinto a dilatação do meu peito, sinto o sangue quente a circular… e aqueles que foram forçados a deixar de sentir o seu calor? Fico magoado com o responsável.

sábado, 21 de maio de 2011

Fernando o aluno de 72 anos

O quotidiano é marcado pela corrida dia após dia. Somos formigas onde os sonhos e objectivos difíceis são elefantes que tentam incessantemente pisar a marcha e interromper a integridade da vontade individual.

Lucila, personagem desta passagem fugidia, acredita que na sua longínqua terra de São Tomé e Príncipe é que estão os loucos tradicionais a deambularem nus pelas ruas, a assustarem crianças desprotegidas e a divertirem os menos compreensivos. Afirma ver todos os dias centenas ou mesmo milhares de loucos modernos. Cruzam-se vezes sem conta e não percebem que nem têm tempo para escutar as suas palavras…. Os loucos modernos levantam-se cedo, correm para longe onde ninguém quer saber deles, regressam quando já ninguém os vê nem tem paciência de os olhar de frente. Estes loucos deambulam nas ruas bem vestidos julgando terem um sentido de vida quando a vida parece não lhes dar sentido para viver.

Marcamos espaço com atitudes contínuas. Esquecemos a matriz que é impressa pela vivência. Apagámos do comportamento a maior parte da característica que diferencia a nossa espécie de todas as outras. Solidariedade!

Fernando, o aluno mais velho de uma turma esquecida de uma faculdade de Lisboa luta para que os setenta e dois anos não lhe levem a vida. É um exemplo de persistência, vontade e de querer viver com sentido… luta para se livrar da oncologia que o atormenta e lhe coloca sombras na parte de trás do caminho. As sessões e as injecções são pequenos/grandes pedregulhos que o livro da vida lhe coloca no caminho todos os dias. A bengala é a sua companheira clandestina dos trajectos e com ela o olhar firme de quem quer ter muito ainda a aprender e a transmitir, marcha contra as adversidades. Os seus netos podiam ser seus colegas ou seus professores. Nada o demarca do querer ver também a vida por um canudo. Foi assim que o ensinaram a ver a vida académica.

Os companheiros de estudo são amiguinhos e só muito a custo conseguimos arrancar-lhe algumas palavras de tristeza. É incapaz de partilhar rancores e os maus tratos prefere levá-los pois, acredita ser indesejado dar vida aos espinhos.

Uma lágrima traiçoeira percorre o seu espírito e não se solta. Permanece escondida na firmeza do seu querer. Seja agora ou amanhã, também ele há-de ver a vida por um canudo. Quem o tem nem sempre lhe dá o real valor. O valor vivido através da experiência… e aquele professor que o obrigou a fazer o terceiro exame daquele dia, após uma ida à oncologia e por vergonha esquiva colocou na pauta como faltoso, desafortunadamente tem apagada da sua matriz académica a firmeza da atitude que diferencia o sangue que nos corre nas veias.

No exemplo de Fernando e utilizando palavras suas, ir todos os dias para a faculdade é ganhar vida! Esquecer os pedregulhos que lhe são colocados na caminhada faz parte da grandeza de Homem. Começa a ter dificuldade… de ver, o que realmente deveria ser visto!

quarta-feira, 11 de maio de 2011

METAMORFOSES - PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 10

Metamorfoses. Interrogo-me sobre o que serão as reais alterações de fundo que tentamos desenvolver e, percorridos vários anos desta curta vida, descobrimos que nunca teremos tempo de elaborar todo o pretendido.

Olhar de fora torna mais fácil percorrer o espaço do que foi até aquilo que é. Nessa caminhada… nem sempre encontramos o enquadramento certo, que nos faculte agarrar a perspectiva mais ampla. Previ que lutaria sempre por conseguir abarcar todos os ângulos existentes para que, dessa posição sobranceira, conseguisse empurrar as sombras e pudesse ver a linha do horizonte com o olhar despido de influências e preconceitos. Não quebrar essa promessa íntima permite encontrar explicações sobre pormenores inexplicáveis sob o olhar transversal a que nos habituamos no quotidiano.

Compreender-me é um passo de gigante para conseguir enquadrar o espaço que nos é facultado ter aqui. Motivar a nossa existência a contrariar a comunidade da potencial realidade nefasta é uma tarefa contínua pois, nos momentos menos fortes, interrogamo-nos sobre a valia do nosso querer. A acção pode tornar-se refém das forças adversas, que em muitos casos estão firmes no tradicional e não libertam espaço á evolução. Abanar essa firmeza é por vezes duplamente doloroso. As forças tornam-se contrárias nos dois sentidos. A caminhada da evolução encontra resistências na sobrecarga que coloca na realidade com o movimento inovador inevitável porque nada será como foi. A realidade despoja-se de parte da sua força e vê-se obrigada a permitir a entrada de novos pormenores, que abrem espaço e iniciam a caminhada de afastamento do passado. Este movimento enriquece e fortalece qualquer comunidade e o seu elemento mais valioso será sempre a mente comum. A capacidade de promover a amplitude, que vai do dia de ontem até ao dia de amanhã, sustenta e alimenta a vivência ao longo dos séculos. Nesta fatia de tempo encontrámos escolhas certas e erradas. A inteligência de um povo, não está em não errar, estará sempre em errar e não cometer os mesmos erros. Aprendizagem…

Encaramos a vida de um povo de modo igual à existência de um humano. No entanto, esquecemos de olhar atrás e tentar perceber se lá foram criadas as bases para manter a essência e o resumo das gerações e, no caso de as encontrarmos, só nos resta a nós, elementos que fazemos parte de um todo, efectuar a manutenção dessa matriz. Hoje não somos só nós… carregamos o suor, a dor, as tristezas e alegrias de quem começou a colocar pegadas na caminhada. Não transmitir as virtudes dessas existências passadas é empurrar as gerações mais novas para uma ravina com águas profundas.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Os Sonhos do Rosto

Vejo os sonhos do rosto traçados no espelho. A mão passa e consome a película de vapor. Tudo escureceu à minha volta. Os joelhos perderam forças. Deslizei sob as sombras dos desejos…

Sinto que existe uma causa que empurra e me obriga a permanecer numa posição sofrida.

Por vezes acreditamos conseguir erguer o menir… por vezes vemos escrito nos muros bolorentos do caminho traçado… algo surreal que afasta o jogo da existência humana para longe da sua essência.

Quero permanecer envolto nos braços que vislumbro, trémulos… A ansiedade aumenta a distância. As barreiras que colocamos por defesa provocam a morte do desejo que tem percorrido os dias.

Deste lado, vivo como se estivesse aí. Toco melodias com a chuva sobre o meu corpo. Permaneço inerte na esperança de me veres… de me sorrires e de me confortares uma última vez.

Espero à porta onde te encontras por uma derradeira palavra… um abraço. Algo perece e não consigo evitar.

 O meu coração tem uma fenda que só tu podes costurar com os pontos metálicos. Neste espelho toco o meu rosto imaginando ser o teu… tão semelhante… tão louco… alucinante… estonteante. Permaneço petrificado e aguardo. Por vezes acordo à porta da realidade desejando que a sensação de queimado percorra os tempos passados e me transporte aonde te encontras para poderes finalmente dizer tudo o que não conseguiste… tudo o que não foi… e não é por nada!

Há algo que sempre… há alguém perdedor. Espero com esse bilhete rasgado esperando ter coragem para o pulverizar sobre os teus passos como se fosse a dádiva circunscrita… a nós dois!