segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 14

Biblioteca Itinerante

As feiras do livro colocam-nos em contacto com as novidades literárias e também permitem ao leitor aproximar-se de alguns escritores. A mística que separa a escrita do seu autor é encurtada pelas várias sessões de autógrafos porém alguns escritores necessitam do distanciamento para assim conseguirem alcançar o pleno prazer e empenho nas suas letras. Os livros serão sempre o resultado de tudo isso embora sinta que a relação autor – escrita – leitor esteja a desprezar a componente do autor. Encontramos cada vez mais cópia, plágio e usurpação de autoria.
Tenho também dificuldade em compreender o porquê da ação do homem quando vejo livros a serem despojados do seu real valor quando são abandonados no papelão para reciclagem. Assim, a sua missão de registo de pensamentos e da evolução humana perde-se. Ficam esquecidos à espera de serem transformados em papel de embrulho ou em caixas para mudanças.
 A origem do livro antecipa-se à antiguidade clássica e permitiu à escrita alcançar o leitor de um modo mais fácil em fazer e transmitir a mensagem. Poderemos dizer que as tabuletas de argila ou pedra foram os precursores do livro? Certamente foram os primeiros suportes da escrita. No entanto os Volumen, cilindros de papiro, são o primeiro formato assemelhado a um livro que, ao ser desenrolado, permitia a leitura do seu conteúdo e poderia atingir sete metros de comprimento.
O pergaminho, couro de bovino e de outros animais, foi inventado na cidade de Pérgamo na Ásia menor. Veio substituir o papiro e o seu uso atravessou a Idade Média. A sua maior resistência permitiu o desenvolvimento do formato Códex que substituiu o Volumen. O livro tornou-se um conjunto de folhas mais fáceis de costurar em couro.
Ao Ts’ai Lun, alto funcionário da Corte chinesa do imperador Chien-Ch’u da dinastia Han (206 AC a 202 DC), é atribuída a invenção do papel no ano 105 DC. Foi matéria conseguida através do esmagamento e cozimento de fibras. A introdução na Europa desta nova superfície de trabalho está relacionada com um rapto executado por Árabes a dois chineses que, em troca da sua liberdade, revelaram o segredo que tinha seis séculos. Os europeus começaram a utilizá-lo dez séculos depois da sua invenção.
O novo formato de livro surgiu da década de 70 do século XX. Michael Hart é conhecido por ser o fundador do projeto Gutemberg. Consiste em tornar os tradicionais livros em formato digital. O primeiro texto digitalizado foi a Declaração de independência dos Estados Unidos da América. Recentemente a empresa Apple lançou no mercado de equipamentos electrónicos de uso individual o Ipad onde num espaço de uma palma da mão podemos armazenar uma biblioteca. No entanto, o trajeto que a criatividade humana percorreu na satisfação das suas necessidades, fruto da sua própria evolução, comporta um conjunto de etapas antecedentes e importantes para hoje conseguirmos virar uma página com um simples gesto de arrastar uma imagem num monitor. De entre estas etapas poderemos incluir o projeto da Fundação Calouste Gulbenkian de levar até junto de todos os carenciados no último quarto de século XX, o bem precioso de leitura a custo zero para o leitor. O interessado poderia às quintas-feiras, se a memória não me engana, deslocar-se junto da escola primária e aguardar durante a tarde que chegasse a carrinha Citroen de faróis redondos, cor de tijolo e de laterais caneladas. De lá de dentro saltavam histórias e todo um mundo de lugares e regiões que, provavelmente não terei oportunidade de visitar mas que me eram apresentadas na experiência vivida, descrita ou inventada pela mão de génios, candidatos a ídolos tal como Herger e a sua obra Tintin ou mesmo Julio Verne e as suas viagens. Encontrávamos também os clássicos da literatura portuguesa e internacional. O motorista no momento em que abria a porta da sua Biblioteca Itinerante transformava-se numa espécie de Atticus, o homem romano com grande sensibilidade para o mercado das obras literárias, que no caso português tinha a afectividade e a proximidade para disponibilizar livros de acordo com o interesse de cada cliente. O preço era o laço que se estabelecia entre o funcionário e o leitor em que este, se comprometia a devolver o livro nas mesmas condições de manuseamento em que o recebeu e no prazo estabelecido, podendo sempre ocorrer um prolongamento se fosse oportuno.
Na feira do livro de Lisboa do ano passado fui assaltado no pensamento por uma recordação ao ver novamente a mesma carrinha Citroen no centro da cidade em que o Atticus era uma Senhora sorridente com a dupla função de apresentar para venda as obras editadas pela Fundação Calouste Gulbenkien e de refrescar a memória das pessoas ao expor a viatura, ícone de uma geração e do povo do interior português profundo onde as bibliotecas escasseavam assim como, a capacidade económica para considerar o livro um bem essencial à vida quotidiana.
É impossível fisicamente vermos Steve Jobs sentado na Citroen a abrir-nos a porta com a sua invenção por catálogo na mão mas poderemos visualizar que é possível o Ipad transportar até às gerações vindouras a missão de registo de todo o trajeto evolutivo das espécies.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 13

O JORNAL DO TEMPO
 

O tempo tem algo em si efémero quando passa rápido. É recorrente pois nele temos de fazer e refazer o quotidiano como se fosse uma luta de avanço – retrocesso – evolução. É também eterno. Percorremos a sua linha e só vislumbramos o segmento de recta onde nos encontramos… do lado de cá da linha do horizonte. Perdidos?...

Por vezes é essa a sensação de perdidos na imensidão do tempo a viver os segundos como se fossem as partes mais importantes e existentes entre os ponteiros do relógio.

Nas conversas saudosistas podemos descobrir postais ilustrados do passado que se revelam preciosidades.

Decorreu meio século… quem o viveu afirma ter passado rápido. Muito mudou. Algures no tempo a vila era percorrida por bicicletas e talvez um automóvel. Sentado no chafariz, com tantas recordações impregnadas no velho granito, olho em volta e não há espaço disponível para tanto automóvel. Fazem falta as bicicletas características da vila… o tempo corre…

As memórias por vezes dão sacudidelas dentro do baú onde as guardo… “o autocarro das 13 horas pára em frente do Café Neves. Enquanto os barulhentos passageiros se empurram para sair, o motorista atira o rolo de jornais. Notícias frescas”, dizia… Algumas vezes encharcadas pela chuva. Olho em frente e vejo a primeira papelaria da vila ainda aberta. Provavelmente a D.ª Arminda estará à espera do fim do dia para tirar as molas das revistas e regressar a casa. Recebia sob encomenda o jornal “Blitz”. Dois exemplares, um para mim, outro para o Mendes. Sentíamos a música estrangeira. Lia-se e desejava-se poder ouvir… As minhas bandas começam a ter alguma idade. Poucas se salvaram das garras do tempo empoeirado.

As teias de aranha nas janelas das casas fechadas estão mais amarelas. Alguns rostos deixaram de aparecer no adro. O silêncio nocturno propaga a sua existência pelas ruas iluminadas. A luz, que à noite poucos utilizam, ilumina as pisadas do tempo rodado no relógio, que apagou do quotidiano o murmúrio do convívio social.

O fantasma da noite apoderou-se das sombras que parecem ser os únicos vagueantes no centro. Noutros tempos as sombras escondiam-se para darem lugar aos transeuntes perturbadores de sonos leves. O tempo mostra-se agora mais passivo apresentando a noção de que é mais longo e de que temos… mais tempo. Engano?...

Um talvez não é suficiente quando olhamos o tempo percorrido e nele encontramos traços de pegadas que ainda reconhecemos. Não é suficiente quando corremos para um espaço que ao longe se ilumina porque queremos estar lá e quando nos aproximamos vemos a luz a enfraquecer e cresce-nos a sensação de perdido, confundido pela certeza de ser aquele o seu aposento. É engano quando o tempo esconde o passado sob um presente que parece em tudo diferente. Luto por não desconhecer esta realidade e tento acompanhar com um sorriso.

Hoje sentado, na pedra onde sempre me sentei, transporto-me sobre esse segmento de recta até à direita do futuro. Faz-me acreditar que é possível continuar a redefinir as recentes pegadas.

O “Blitz” já não é jornal, é revista. As bicicletas foram substituídas por automóveis. Os rostos mais velhos retiraram-se, mas a pedra continua polida e daqui é possível um olhar de 360 graus.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA 12

Praia da Foz do Alva

A água corre lenta sem vontade de alcançar o seu destino e a vida vai a galope agarrada à crina do nosso desalento ao olharmos o futuro próximo sem um vislumbre agradável daquilo que nos espera. O desnorte ganha forma todos os dias. Já é possível dizer-se todo o tipo de barbaridades sobre a matriz do povo e do Estado-nação vivo, mas adoentado a quem querem arrancar pedaços aos seus pilares e, supostamente, verem desmoronar-se. Os que estão fora aguardam abutremente. Os que estão dentro reviram o branco do globo ocular na procura tresloucada de justificar a responsabilidade noutros costados. De repente o que é nosso tem valor e venha de lá o comprador de produtos nacionais.

Certo… por um flash das recordações daquelas mais remotas e escondidas trago à conversa momentos alegres, quando não havia carro em casa, quando não sabia o que era uma agência de viagens e que julgava não conseguir viajar de avião. As férias faziam-se em troca de espaços com familiares das grandes cidades e vice-versa. Olho para a distância tempo como sendo uma eternidade percorrer o que se consegue em duas horas pela autoestrada.

Em dia de semana nos meses de verão o primeiro autocarro da manhã transportava-nos para além da nossa fronteira diária como se fossemos dar a volta ao mundo no entanto, só dobrávamos a esquina remota da serra. As mulheres levavam as trouxas de roupa à cabeça e os homens o cesto do farnel ao ombro. Eu seguia pela mão disponível. Recordo-me que detestava os pacotes de 100ml de leite com morango. Ainda hoje é-me impossível o cheiro. O preço mais barato obrigava à compra. Decerto havia mais quem não gostasse porque estava sempre mais barato. Era raro conseguir do orçamento um pacote de waffles cobertos com chocolate e que tinham um pacote dourado.

O autocarro começava a rolar às sete e quinze minutos e nós esperávamos á entrada da vila. Por vezes parecia uma sementeira de cogumelos pois, ainda era época de colocar carga na grelha do tejadilho. Naquelas manhãs não havia birra nem sono. A descida para o rio era empolgante. A paragem depois da ponte era apertada e mal permitia a saída. O trânsito parava, o motorista resmungava porque tinha de subir e atirar as trouxas da roupa. Sentia pressão por as restantes viaturas estarem bloqueadas.

O rio estava já ali mas era impossível saltar logo lá para dentro. A água estava ainda gelada e tínhamos de ajudar a encontrar a melhor pedra para que a roupa fosse lavada rapidamente e as mulheres pudessem refrescar-se a meio da manhã nas águas límpidas e despoluídas do Alva. Os homens procuravam lenha nas bermas do rio e preparavam uma fogueira para quando fosse hora a acenderem e fazerem os grelhados. Alguns arriscavam e só comiam o que pescavam. Nem sempre os dias eram de fartura.

O melhor lugar para dar saltos era debaixo da velha ponte que ruiu por incúria técnica e por falta de manutenção durante a construção da nova estrada. O pedregulho ficou para sempre escondido. Era o local onde se saltava e á noite se contavam estrelas. Era um ponto de convívio da Beira Litoral Interior. As dificuldades de orçamento familiar não permitiam ambientes luxuriantes. O descanso era alcançado através de espaços naturais, por vezes perto da habitação. Onde hoje, provavelmente, existem pedras sujas e abandonadas perpetuaram-se momentos de cariz naturista, natural e normal por uma comunidade, que caminhava há trinta anos para uma abertura compassada e pouco preocupada com as dificuldades deste nosso quotidiano. Forçosamente prescrevo uma realidade adversa a futuros caminhos delirantes e autistas. Saudosamente deverei percorrer caminhadas a tentar colocar os meus pés sobre pegadas sólidas na tentativa de encontrar as pedras onde outrora as nossas mães colocaram roupa ao sol, enquanto nos atirávamos para a água corrente.

O enrolar das trouxas representava o regresso ao ponto de partida. Hoje o retorno à circunstância dessa época será penoso e obrigará a um refazer mental da realidade e à reposição concreta do quadro social, do qual ao sairmos deveríamos ter tido a preocupação de não subjugarmos o futuro a uma vontade que nos é alheia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A IMPORTÂNCIA da DEMOGRAFIA do CONCELHO de PENACOVA

            Compreender um concelho e a sua realidade demográfica comporta a necessidade de um conhecimento concreto e aprofundado da sua população. Consequentemente, a sua estratificação, evolução e características sócio-culturais obrigam a fazer-se um enquadramento em perspectiva do seu crescimento na região onde está inserido.
O estudo sobre uma população encontra o seu produto no número total de indivíduos (homens e mulheres em conjunto e em separado), nos grupos etários (jovens, adultos e idosos), nos nascimentos, óbitos, fluxos de imigração e de emigração. Daqui resulta a análise que permite, através de cálculo de taxas, índices e saldos, perceber quais as dinâmicas existentes na interacção dos indivíduos da população. Isto faculta a construção de possíveis cenários, que podem dar um bom contributo na tomada de decisões sobre caminhos a seguir no encontro da satisfação das necessidades da vida e do conforto das comunidades. Assim como, contribuem positivamente no apontar de um melhor curso do plano estratégico para que, no momento final, seja alcançada a eficiência e a eficácia da utilização dos recursos pois, como sabemos, são insuficientes.
População Penacova
Baixo Mondego Nut II

Total
Homens
Mulheres

1970
17278
7190
9150

1981
17351
8120
9263

1991
16748
7657
8707

2001
16725
7636
8514
340309
2011
14980
6984
7996
335399
O total de população de Penacova desde os últimos censos tem sido inferior a 20000 indivíduos. A tabela apresentada demonstra que o concelho teve um ligeiro acréscimo de população entre 1970 e 1981. Neste período estão incluídos dois acontecimentos excepcionais, que influenciaram as dinâmicas da população. O primeiro refere-se ao fluxo de entrada de população vinda dos territórios ultramarinos e o segundo refere-se à última grande vaga emigratória, principalmente para a Europa. No entanto o saldo foi reduzidamente positivo. Contabilizando os nascimentos vivos e os óbitos existiu um aumento de 73 indivíduos. Após um decréscimo de 600 indivíduos, existiu nos dez anos que sucederam alguma estabilização. Os dados preliminares dos Censos 2011 estão ainda pouco trabalhados, no entanto permitem perceber que ocorreu uma diminuição da população em 10,4% entre 2001 e 2011. Este valor revela-se preocupante sobre a questão da desertificação do município. O concelho de Penacova (Nut III) insere-se na Região Centro – Baixo Mondego (Nutt II) e esta perdeu, entre 2001 e 2011, 1,44% da sua população. Assim, verifica-se que Penacova não está a fomentar atractividade na fixação da sua população. Os movimentos pendulares, que representavam grande parte das movimentações da população para Coimbra, tornando os concelhos limítrofes regiões dormitório, não estão também a promover a fixação da população de Penacova. Os dados definitivos dos Censos 2011 irão permitir perceber concretamente as causas deste valor negativo. Será também possível saber qual a evolução da pirâmide etária do concelho. Sabe-se que em 2001 a pirâmide tinha a sua base mais estreita que o centro. Significa que a reposição das gerações não está a acontecer. Ocorreram menos nascimentos e a esperança média de vida aumentou nas mulheres de 80,8 em 2001 para 81,6 anos em 2007 e nos homens de 74,3 em 2001 para 75,5 anos em 2007. Significa que a população está a envelhecer. A soma da população jovem com a população idosa representava em 1970 41% e em 2001 34,1% do total. Estes dados são enganadores, pois sabendo que o número de nascimentos vivos por mil mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos reduziu de 73,24 em 1970 para 36,63 em 2001, será muito importante analisar os dados finais dos censos de 2011 e verificar se tendência é de redução. A verificar-se esta situação é previsível que antes de 2050 a pirâmide tenha o aspecto de um cogumelo e isso será a prova de que o estrangulamento na base produzirá efeitos de futuro muito prejudicais na estrutura populacional, social e económica.
A pirâmide etária da população de Penacova tem as características de um país desenvolvido em que naturalmente a taxa de natalidade é reduzida, o número de adultos é superior aos jovens e a esperança média de vida é grande. Estes valores acarretam um esforço sócio-económico maior porque o envelhecimento da população aumenta os encargos com reformas e pensões e faz aumentar as despesas com a saúde. Em consequência da redução de nascimentos, o grupo etário dos adultos sofre uma sobrecarga pois é a parte activa da população. Por fim a sociedade perde dinamismo por não conseguir efectuar a reposição das gerações.
Oportunamente os censos de 2011 serão a fonte de informação que ajudará à confirmação de tudo o que foi apresentado e darão um óptimo contributo no encaminhamento das decisões sobre a promoção de medidas de combate ao envelhecimento da população.

PAULO CUNHA DINIS

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 11


SER CRIANÇA



Desfolho um livro, Portugal Património, e nele descubro passagens da minha infância. Passar folha-a-folha colocou em mim a felicidade de quem vê o pedaço de terra que o viu crescer inscrito num anal de história. O primeiro pensamento foi de que cresci numa vila com património de valor, referência arquitectónica e cultural.

De dentro do livro saltaram um sem número de momentos e memórias que me fizeram parar o tempo! Por breves segundos lutei comigo no sentido de me obrigar a ser novamente criança. Tão grande que parecia ser a vila. Imaginava como seriam os espaços além daquilo que me era permitido ver. Queria ir pelo meu pé, mas tinha o espaço controlado e os minutos contados. Nem todos estão abertos ao espraiar do mundo da criança. A imaginação ultrapassa todos os entraves.

As recordações… conseguem parar o tempo… os torrões de açúcar amarelo que a Dona Letícia Videira me deixava tirar do compartimento de madeira alinhado dentro da mercearia. Tenho ainda vontade de subir à torre da igreja e ficar lá a ver a vila em movimento. O cheiro a madeira velha e a cera que emanava da entrada da sacristia adocicava a curiosidade. Gostava de ver o que está dentro daquelas grandes arcas. Perguntei uma vez onde guardavam o presépio… tinha vontade de o reconstruir e colocar um lago com peixes por baixo do altar.

As páginas deste livro… continuam a revelar as minhas memórias, que saíram de dentro a uma velocidade estonteante. Por breves momentos quase vejo a carreira e as minhas primeiras viagens para fora do mundo circunscrito da vila. O olhar incessante para qualquer coisa… faz ainda interrogar quem não percebe o que vai dentro da cabeça de uma criança.

Os gritos de liberdade quando saíamos do recreio e imprudentemente corríamos pelas imediações da escola a jogar à bola, ai o senhor padre… o senhor doutor passa e sorri com tal reboliço à porta do seu consultório. É a alegria de uma comunidade por ter crianças todos os dias aos gritos pelas ruas.

A fruta rapinada pelo caminho. Todos à uma como se a necessidade fosse geral. Os cinquenta centavos para jogar matraquilhos no café Marialva. O giz de jogar à macaca esquecido num bolso das calças, lavadas à mão no tanque de água fria. Ainda tentei saltar ao elástico, “coisas de meninas” diziam, fez-me cair com os pés atados pela habilidade com o pé à esquerda e à direita.

A nogueira plantada no recreio da escola e, todos os anos, esperávamos para ver o que eram nozes penduradas. A separação no final de um dia de aulas em grupos consoante as aldeias… formigas saltitantes na berma da estrada.

Olhar a vida sem a responsabilidade de um adulto é decerto o enquadramento psicológico mais favorável quando se é criança.

Hoje ser adulto também é ser criança. É carregar para a imensidão deste nosso mundo o solitário estado de alma, por vezes através de recordações ou acordando o miúdo que persiste em nós… as garotices de uma adulto são a prova existencial dessa duplicidade de seres que coabitam nos nossos corpos. O emergir desse garoto é o resultado de uma luta constante, que decorre entre o decoro e a decência para quem defende a compostura alinhada.

Percorro alguns corredores com imagens da vida passada, sempre que existe a vontade saudosista da liberdade, que a idade de criança nos permite e nos ajuda a manter a sanidade da felicidade.

Poderiam existir muitas mais crianças entre nós!

terça-feira, 7 de junho de 2011

As Cinzas dos Nossos passos

Marcamos passo. A batida vai quase morta. Percorre velhos caminhos, já pisados e marcados por pés mais velhos ainda. Quem disse que a caminhada dos antepassados é um peso? Nestas vidas frágeis olhamos o horizonte e acreditamos que a sua distância não tem alcance. Fazemos acreditar os nossos pares que não conseguimos dar um salto, pedimos para nos deixarem dar um saltinho, mais curto que a distância que vai de joelho ao tornozelo. Sorrimos… quando confirmamos ser dignos de saltar alto.

A água corre alta. Lá atrás disseram-nos que o próximo redemoinho pode ser fatal. Por malícia o sábio resumiu num tormento, a volta que a água dá a um pedregulho.

O tormento fere quando olhamos os raios de sol a misturarem-se na nossa martirizada existência e a colocarem um comportamento insignificante ás sombras por nós construídas. Agarramo-nos a elas como se fossem realidades missionárias da boa ventura, que impomos ao quotidiano.

Nem Sebastião… nem Sebastiãozinho cavalga no lusitano branco… não vem acudir como alguém disse que viria pela madrugada. Onde está o papiro rasurado, talvez corrigido… finalmente, colocando no trilho certo este desventurado pedaço de paraíso repleto de madressilvas e macieiras secas.

Secas e gretadas estão as palmas das mãos de tanto escavarem e de se elevarem ao céu agreste a agradecerem um punhado de nada oferecido por um imprudente e insignificante bem-falante. Do alto da tribuna indica o caminho para vermos o nevoeiro. Temos de encontrar o nevoeiro das suas ideias e afirmar ser imprescindível ver a manhã carregada de nevoeiro, que humedece a nossa roupa e entorpece as articulações.

Agarra-me nevoeiro! Esconde-me, quero fazer parte de ti e sentir o prazer de abraçar as idiotices pensadas para um dia de inverno.

Acolhe-me nevoeiro espesso, eleva-me sobre o horizonte e mostra-me a liderança firme e fiel às promessas, que nos sussurraram em tempos.

Sem cavalo branco nem manuscrito seremos audazes… soltaremos a fumaça da queimada das velhas cartas do rei para o plebeu… fertilizaremos o solo com as cinzas e alinharemos a nova pegada. O peito nu será agraciado pela luminosidade da primavera.

Os malmequeres quererão ser a passadeira para os teus famintos pés descalços!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fora de Controlo

Sinto por vezes que estou fora do compasso. A batida do meu coração está desconexa com o ambiente que o rodeia. A arritmia perturba quem sente a vibração do fecha e abre das válvulas. Mesmo não demonstrando incomodar-me com a situação, é certo que não gostaria que ele deixasse de bater, logo agora que tenho tanta coisa enriquecedora à minha volta, talvez lá mais para a frente, talvez um dia… nem quero saber quando!

Olhar documentários na televisão portuguesa, por vezes carrega surpresas agradáveis, diria antes agridoce, pois o assunto é muito angustiante… viver treze anos agarrado à impossibilidade de se mover sozinho… treze anos sem receber uma visita… não creio que seja por vontade suprema, não creio que seja por outra vontade qualquer… creio que a própria vontade deixou de ter vontade de acreditar… envergonhou-se por não conseguir pensar mais que ainda é possível … viver.

Era giro e gratificante pedir, agora fica mais giro solicitar, que ergamos as mãos e do baixo altar em que nos colocamos e tenhamos a coragem de não acreditar que nós não temos mais força para acreditar, ou de aceitar que mesmo o infortúnio alheio é uma mais-valia para todos… sim, para todos que aceitamos o lado negro da vida como uma aprendizagem de futuro.

Sinto por vezes que o compasso sai fora de mim… empurra-me para um abismo sem igual. Força-me a acreditar na fraqueza, força-me a esvaziar-me da pouca energia que consigo armazenar para o dia seguinte.

Quem quer? Quem olha sem pestanejar?... uma imagem brutal provocada pela ira sem coragem para tentar outra coisa qualquer…  positiva… quem quer olhar?… olhar mesmo para a verdade da  faceta selvagem de pai desvairado que aniquila sem clemência… para consigo essencialmente.

As letras custam a fixar-se na folha, tenho repugna em colocá-las lá. Quero escrever sobre o lado sombrio do meu semelhante, sinto que tenho de o fazer… mas repugna-me.

Sinto a pancada da minha batida. Sinto a dilatação do meu peito, sinto o sangue quente a circular… e aqueles que foram forçados a deixar de sentir o seu calor? Fico magoado com o responsável.