terça-feira, 5 de abril de 2011

LÁGRIMAS ESCONDIDAS

As minhas lágrimas escondidas percorrem os dias em que caminho sozinho… rodeado por uma humanidade fria e distante. Provoca o desconcerto no meu pensamento. Na imagem semelhante do teu ser encontro tudo para sermos tão gémeos e tão estranhos. Tão próximos e tão distantes nos mesmos passos… profundos… pelo que somos e marcamos.
Alguém como tu destroça a génese… e as repercussões são círculos que nos envolvem. Provoca-nos o desnorte… olho o teu rosto e vejo o desespero por só agora compreenderes a angústia vivida nas costas voltadas… nos sorrisos sob a capa da ironia a solicitarem o amor que foi dado. Proporciona-te a perspectiva tardia… tardia… hei.
Como dói o sangramento frio… enrola-me no mais profundo sentimento demente… acredito um pouco mais no mérito desenquadrado e descompassado da batida dos nossos corações… luto pelo desmedido comprimento da vontade mútua em construir as bases do futuro efémero.
As memórias são agora transportadas pelas sombras das nossas existências. Pouco vale o baú ao fundo do corredor desta caminhada desesperada…
Choro… choro… por ti como se fosses a minha pessoa. Sinto as tuas carnes rasgadas como se um fino golpe percorresse o meu corpo tacteado de mestria por uns dedos desconhecidos.
A voz penetrante nos meus ouvidos leva-me com desaforo deste estado de letargia para a vida vazia e mostra-me a possibilidade de um preenchimento enriquecido pelo vaguear entre o presente e a existência de entendimento das fogueiras ateadas por nós. É um fogo muito forte transversal aos meus sentidos que adormece os membros, aviva o olfacto e coloca na ponta da língua o vértice… a fórmula capaz de preencher os espaços da letra sublime. Permite-me no tempo que resta ser intemporal, mesmo que por vezes a perda se sobreponha a tudo que foi imaginado pelas almas incandescentes!
O amor puro queima e perdura! Olho o teu rosto e nada mais existe para lá da linha do horizonte… nada mais interessa conhecer…
Deixa-me encontrar-te porque não conheço ninguém como tu… nada se compara ao amor puro!
Não sei responder se os nossos erros foram uma construção ou uma aprendizagem porque não encontro ninguém como tu…
Agora consigo ouvir as tuas palavras… simbolicamente em eco não é possível esquecer que por vezes o amor dói… muito mais que uma simples ferida, dói secretamente nos fluidos dos nossos corpos, dói por vezes visível dói por vezes incorporado no olhar vagueante…
Por ultimo recordo incessantemente o que disseste…!

segunda-feira, 4 de abril de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 8

Um Olhar que Não Podes Agarrar 
Uma imagem… é muito mais do que o simples esboço que registamos sobre um rosto triste ou num sorriso, num olhar que nos fixou e guardámos secretamente. É aquela imagem que reservo e em que acredito ser do conhecimento de todos, mesmo sabendo que não a expus a ninguém… por timidez pura. Não compreendo hoje, se acreditei ser amor ou se queria muito que assim fosse.
Arranco uma a uma como se fossem folhas do meu bloco de notas e não encontro a imagem que agora queria mostrar ao mundo. Não sei o que me deu para a guardar tão bem guardada que agora, neste momento da minha vida, tinha coragem para a colocar à luz do dia e não sei onde está escondida.
 Estou frustrado. De que me serviu tanto secretismo se nem a mim ela se permite descobrir.
Sigo muito lento no compasso.
Altamente é a palavra que me vem à cabeça, com a última letra a soltar-se do resto da palavra. A virgem Maria nas suas melhores vertentes, será melhor…  perspectiva de passado, presente e futurista. Quantas Marias serão ainda futuristas? Tu, artista do traço farás de José e eu sorrio para a cópia do original porque esse tens tu em tua posse. Tenho uma imagem de tudo isto… fresquinha na minha frente. Não é uma imagem qualquer, é movida por energias passadas, sabemos nós intervenientes como atrás da realidade, os mais velhos queriam e não aceitámos. Somos menos, simplesmente alguns partilhámos as mesmas ideias, construímos as imagens semelhantes e, aquela que te queria mostrar, parece que está feita em mil pedacinhos, que tento juntar e tapar os rasgos com fita transparente. Hei-de voltar a recriar o contexto da tua virgem Maria e da minha mão estendida, agora plena de esperança, quando o tempo é muito menos, mas mais enriquecedor.
Onde raio está o resto da imagem? Alguém consegue ajudar? Consegues tu Anjo ASO? Foste tu que levaste parte da imagem, meu… eloquente, nosso companheiro daquele sorriso fixado no reflexo da janela do teu quarto, molhada pela chuva matinal do nevoeiro espesso, que ainda detesto porque nada vejo para lá dele.
Estamos orientados na manutenção das tuas gargalhadas, que só os mais chegados ouviam, só os mais circunscritos partilharam. Não me ocorre nada, excepto o tiritar do teu assobio, vadio nos momentos mais pesados como se fosse o chamamento na hora certa, que nos resgatava da melancolia adolescente e nos transportava para lado nenhum, simplesmente era extremamente gratificante ouvi-lo.
Falta-me um pedacinho da imagem… nem a mão do artista conseguirá repor as linhas, nada aritméticas, da realidade tão longínqua e tão presente. Tão fria e tão calorosa no vaguear pelo emaranhado dos destinos. Tão colorida e tão cinzenta.
Tão viva e tão morta. Tão morta, mas tão viva. Tão perturbador que isto parece, mas tão esclarecido e reconfortante saber que é um anjo, que guarda o pedacinho da imagem!

quarta-feira, 30 de março de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 7

QUEM SOMOS

Quem somos? Quem és tu? Quem sou eu? Quem…? A rua terminava, mas já não termina na casa da professora. A vida e o mundo prolongaram-se para lá do cimo do monte. A igreja está, de acordo com os preceitos de altar dirigido a Norte, de costas voltadas para a Vila. A criatividade artística de quem por cá passou não se liga aos dias de hoje! De escola a centro de saúde… salve-se a aprendizagem da doença, que, quer queiramos ou não, carregamos dentro de nós e que se revela em pleno se formos velhos!
Quem… fugiu daqui e deixou ficar o rasto empoeirado das suas primeiras marcas? Dos morangos tirados ao padre, das corridas imaginadas, ou não, sentados na carreta, manivela para a esquerda, manivela para a direita… sai daí que essa corrida ainda não é para ti. Quem…? Atirou bombinhas de carnaval para dentro do pátio do vizinho mais rabugento, sem saber que o cão morreria de ataque cardíaco?
O código mais estranho do “B” e do “A”… quem? Teve a triste ideia de fechar vinte crianças numa sala fria e de tecto alto com um adulto lá ao cimo a explicar aquilo que teríamos de aprender… soubesse eu a frase de Eça de Queirós em que pede a Deus paciência para aturar esta sociedade e, eu acreditaria que alguém naquela idade me compreenderia. Quem…? Ainda hoje quer, que nos sete ou oito anos de vida, tivéssemos tido uma professora tirana sem sentido de ensino e nos levasse a acreditar que os anarcas têm um futuro promissor.
Quem? Queria ter à sexta-feira um homem com umas vestes pretas e de colarinho branco a dizer-nos para acreditar em alguém que estava por cima do azul do céu… mas que se esqueceu de dizer que, estas coisas de fé devem no meu entendimento, sair de dentro nós para que se apresentem aceitáveis e credíveis. Preferia a hora de danças populares em que me obrigavam por ordem alfabética ou… alternada, já não me recordo, a saltar o vira com os meus pés de chumbo. Desculpa Isabel se “botei” alguma unha negra.
Alguém continua a regar a nogueira, plantada do lado da quarta classe? Ai o frio no rabo quando tínhamos de ir à casa de banho. E… a melhor poupança de água é estar congelada na canalização. E… alguém guardou a sua caneca com que bebia do panelão a granel o seu leite com café? A minha era verde de plástico. Desculpa Casaca porque parti a primeira na tua cabeça porque me querias passar à frente. Ainda algum miúdo leva uma cavaca e uma pinha todos os dias de inverno para a escola? Ainda existe a régua assombrosa de madeira rija? Quem teve a coragem de a esconder? A acontecer só pode ter sido o primo Emídio. Tenho um feeling muito forte!
Quem se esqueceu da tabuada ou do TPC? Hum…?!
Os momentos e as pessoas que deram o seu contributo na construção do nosso futuro devem ser recordadas, no antes e no depois, da sua viagem…e a encenação do que é aceitar uma sociedade de descartáveis começa no dia imediatamente antes do primeiro contacto com a sociedade, seja à porta de casa seja no primeiro dia de escola. Oito e oitenta cada um gere a sua medida, mas que o oito de alguém não se transforme no oitenta e oito de todos nós. As estruturas individuais e as sociais têm os alicerces firmes quando damos uma gota do nosso suor e nos fazemos acreditar do real valor que isso tem.
Quem és tu? Poderá perguntar o espelho… o objecto mais isento e cruel que poderemos pendurar no nosso espaço.
Quem sou eu? Será que tenho a certeza? Talvez não… mas adoro pendurar espelhos e de os iluminar. O quão estranho pode parecer!
Quantos ainda consideramos ter professora primária? Eu sei que tenho… mora na casa de sempre, na rua que lá terminava, mas que agora, muitos dias, passa ao lado no adro da igreja! Quantos… não esqueceram o nome dela? Não será prepotência dizê-lo aqui em público, pois acredito que as raridades devem ser preservadas no íntimo de todos. E a idade? Não faço a mínima ideia, já foi professora da geração dos nossos pais. Sorte de alguns!
Desculpem… Isabel e Mariana são ainda as minhas professoras primárias!

terça-feira, 15 de março de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NO ESPERANÇA 6

CONVERSA
Estou sentado no café Marialva. O relógio rodou, rodou e já estou novamente a olhá-lo. A igreja matriz onde todos nós fomos baptizados e casados talvez, continua a perder a pintura na parede, que está de costas voltada para mim. Ali, do lado de dentro é o altar-mor. Ainda me lembro sem necessitar de ir confirmar. Sinto uma alegria nostálgica, mas senão fosse assim, ou estaria quotidianamente habituado ou então algo de errado se tinha passado.
Olho o final de tarde. Tem um pôr-do-sol dos mais dourados que já vi. Tenho a presunção para dizer isto, mas está á frente dos meus olhos e não consigo evitar de tirar uma foto para levar comigo para a minha Lisboa… acolhedora. O meu amigo Cunha, companheiro dos cigarros fumados pela madrugada enquanto aquecíamos os pés mergulhados na água quente da sua banheira, admira-se porque ninguém fotografa o pôr-do-sol de São Pedro de Alva. Só eu, não é? O Cunha bebe o seu cafezinho já quase frio e sorri. Continua louco, pensa… Só ele para interromper uma conversa e fotografar algo que ninguém dá atenção. Podia ser amanhã. Vai ser igualzinho vezes sem conta nesta vida. Engano porque não vou estar cá para vê-lo. Assim levo um pouco daqui comigo, como também levo duas broas de milho para saborear durante a semana. São pedaços das minhas raízes, que ainda posso desfrutar.
Tantos anos e nunca me tinha sentado na esplanada num fim de tarde no Outono. A minha personagem Iracema ultimamente passa cá (não São Pedro de Alva, mas metaforicamente Conchinho) tardes e eu nunca tivera a vontade disso. Ou talvez ela tenha esse meu desejo. A lenha queimada, a natureza a desfazer-se das cores do verão e a deixar cair mortas, as folhas. Os casacos já saem á rua. Um ou outro conhecido passa e cumprimenta o Cunha, membro do poder político local. Sinto orgulho em estar aqui com ele. É bem tratado por quem passa. Ele, sempre cordial. Desde a infância que sorri mesmo para quem não tem intenção disso. Tem dificuldade em compreender comportamentos inglórios e viscosos. Algo está a mudar com a nova classe política do poder local. Quantos são como ele? Conheço alguns, mas este membro é peculiar.
Somos agora dois trintões felizes, o que é algo pouco visto. Sorrimos com as recordações e com os projectos concretizados. Não desisto de afirmar que não sou escritor, gosto de escrever de coração e seremos sempre a mesma alma, embora com responsabilidades acrescidas sempre que um texto ou uma ideia é aceite. O frio aperta, no entanto tenho a sensação que ficaríamos horas aqui na conversa. Cada um com as suas obras. O novo centro de saúde para ele, um novo livro para mim. Tão dispares que são os nossos caminhos, mas também tão paralelos e convergentes naquilo que conhecemos um do outro. É pura amizade, isto que sentimos. Não consigo voltar sem saber se está bem. Por vezes passo á sua porta só para confirmar que é ali que mora. Não duvido que continuaremos assim em elevada estima. Curioso!
O sol já foi. O chapéu-de-sol já foi tirado como se a temperatura ressequisse a lona da publicidade. Não precisamos de dizer nada, sabemos perfeitamente que este momento pode ser transformado numa cena hilariante. Não podemos cair nessa tentação. Por breves instantes rejuvenescemos a alma irrequieta, que se mantém dormente nos nossos rituais adquiridos com a idade adulta. A elevação de tudo isto é, sabemos, que não temos a mínima vontade em sermos sérios. Guardamos para nós essa intimidade.
 O relógio não parou e ainda não comprei um desenhado por Salvador Dali. A dobra do mostrador fazia-o parar na hora e no minuto ideal para não termos de terminar esta conversa e irmos à nossa vida.
Voltaremos!

segunda-feira, 7 de março de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 5

A Palma da Mão

A tua mão tem outra dimensão… diferente da persuasão da vontade alheia. Na tua mão cabe… a tua vontade, a realidade, a ilusão, um sorriso, um recém nascido…
Percorres com o indicador o contorno do sol… escondes parte do brilho. Consegues esticar o braço e empurrar a vontade alheia para um beco com pouca saída. Todos necessitamos de uma saída, todos queremos que o tempo marque o compasso e siga sem perturbações a marcha. Os teus passos podem ser o guia… uma pegada atrás da outra será o trilho das gerações, que te carregarão para além dos dias que consegues alcançar com a tua visão. O acreditar depende de quem se ilumina, de quem procura compreender e acompanhar pegadas alheias e estranhas nos dias do presente. O futuro… certo… entrará no nosso quotidiano na perspectiva vislumbrada pelo entendimento de cada um.
Na palma da mão está o sentido de uma vida… uma dádiva… uma ajuda… um virar de página da caminhada.
Na palma da mão cabe o choro de um povo, cabe o sorriso de inocente e a revolta dum incompreendido.
O gatilho pode ser premido… revoltar o mundo… aliviar uma vontade e mergulhar alguém na escuridão de um acto irreversível. Pode projectar uma vontade benéfica, pode aligeirar uma controvérsia. Podes esconder o dedo que provoca tudo isto, por cobardia, por coragem ou por uma visão estranhamente estratégica, podes…sorrir também a um aceno!
Ao ver a palma da minha mão não sei o que vejo nem o que quero ver. Tenho receio de esconder tudo e também de tudo revelar. O equilíbrio é difícil e todo o esforço pode ser retido na palma da mão de um outro que me agarrou e constringiu, a executar uma vontade que me é alheia. Podes apertá-la sem que tenha percepção… a subtileza poderá afastar outros apertos ou esmiuçar aquilo que não me queres revelar… depende de que lado está a sensibilidade.
Na ponta dos dedos estão confidências, escondidas por vezes no empoeirado dos passos diários. Existem marcas constrangedoras, se encaradas por vergonha, existem referências agraciadoras, se interpretadas construtivamente integrantes dos elos faseados das vidas que se relacionam. São barómetros privilegiados no tactear da nossa vontade, que por muito caminho percorrido, sujeita a nossa certeza… a sentir nestas extremidades o local do próximo latejo.
A caneta com que escrevo as marcas da vida sustenta o querer estranho de expor as ideias ao distante olhar comum, que pode olhar a palma da mão e não encontrar o espelho comparativo, que lhe permita ver com clareza as imagens construídas com letras pelas pontas dos dedos e não o impulsione a acreditar que consigo traçar na folha de papel os finos traços da palma da minha mão, aberta sem preconceitos nem acervos… e me iluda de que os reflexos, por mim construídos, são por todos compreendidos.
Na palma da mão estão escondidas sombras, estarão sempre do lado da contra-luz. Por mais vezes que revir a mão, as sombras serão mais rápidas do que a vontade de as expor. O momento da sua revelação pertence-lhes. Não queiras forçá-las e estar num espaço iluminado, as sombras não precisam nem querem a luz directa. A sua mestria está em revelar a realidade iluminada através do seu jogo de mímica, que se entrelaça com os olhares expectantes dos mais atentos e se expande por onde quiseres, desde que lhe abras as portas da contraluz. O luar carrega uma infinidade de certezas, em que a realidade sabe que aí não será enganada, pois já todos por lá passaram e deixaram a sua sombra copiada.
Na palma da mão podes imaginar… o que podes criar!

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

EVENTO

21 de Março: um Sentido Diferente para a Dia da Árvore

Desde tempos longínquos da humanidade que a água é um elemento de base na vida das comunidades. A constante procura de espaços que permitissem protecção, solos férteis e água, desenvolveram no homem um sentido apurado de busca do tão desejado bem, tenha sido num deserto, tenha sido em São Pedro de Alva.
Aqui a água abunda tanto no subsolo como nos grandes reservatórios criados pelo homem nos grandes cursos, Mondego e Alva. No entanto, nos locais mais afastados a construção de fontanários permitiu à população, durante séculos, o acesso ao precioso líquido em condições potáveis.
Estas pérolas da arquitectura rural perderam o seu protagonismo com a construção de pontos de grande captação e da rede de distribuição ao domicílio. No entanto deram um contributo importante na vida das pessoas e no desenvolvimento da comunidade.
No sentido de avivar estes espaços na memória das pessoas e das gerações mais novas, a Junta de Freguesia de São Pedro de Alva decidiu apoiar, em conjunto com a Biblioteca da Escola C+S de São Pedro de Alva, um projecto que consiste em plantar algumas árvores no dia 21 de Março junto dos fontanários da Vila.
Os intervenientes serão os alunos dos vários ciclos que para tal estiverem motivados. Pela sua mão, irão dar vida e visibilidade - a partir desta data e por longos anos - a esta ideia, vendo crescer as árvores agora plantadas.

A segunda parte do projecto prevê que os jovens intervenientes elaborem trabalhos escritos ou de desenho, de modo a que, uma vez compilados, dêem corpo a uma publicação. A edição dos mesmos, em livro, servirá também para mais tarde recordar o contributo que esta iniciativa deu no sentido de quebrar o esquecimento a que, em grande parte, os nossos fontanários foram deixados, após termos água potável na torneira de casa.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 3

                   O BARCO A VAPOR

Uma esplanada à beira-mar num mês de Julho tem o ambiente intimista de verão misturado com um acontecimento de misticismo. As pessoas circulam e passeiam-se pelo espaço e calmamente recuperam do esforço e do stress da vida diária. A Praia da Luz é hoje conhecida dos portugueses pelo noticiário mediático importado do Reino-Unido como se fosse o conceito sublime de criar e inventar tempo de antena. À parte de todo o passado recente, pelas suas ruas encontramos sorrisos de várias nacionalidades europeias e latinas onde os portugueses, este ano são em maior número, se misturam e gozam as suas férias numa mescla de línguas maternas. O inglês vem vencendo a batalha com o português europeu e da América latina. Surge também um novo conceito de língua, o estrangeirismo algarvio, um desenrascanço de quem precisa servir bem e, em que a pressa de um ordenado, não permitiu a aprendizagem acertada da língua de Shakespeare. Pelo meio de um “No problema” vejo um petiz a sair alegre de uma loja de vendas oportunas de verão, daquelas coisas que no resto do ano só servem para ocupar espaço nas gavetas e prateleiras lá de casa.
O tempo percorre as nossas vidas, esconde-se atrás do trilho dia após dia e andamos sobre ele sem nos apercebermos do caminho percorrido. Quando menos estamos à espera zás, ele reaparece e faz-nos sentir melancólicos. Por breves segundos, não compreendemos a verdadeira razão de ele vir assim à tona do nosso pensamento.
Não estamos sozinhos… as nossas mãos estão entrelaçadas com outras mais idosas, enrugadas, de veias salientes. Outras mais novas fazem-nos alimentar estes passos. O petiz, a quem vou dar o nome Mário, talvez por sentir carência de alguém, saiu da loja de mão dada, à que julgo ser sua mãe, e na outra levava triunfante a nova aquisição. De dentro do saco de rede, desperta-me a atenção de um brinquedo em formato de barco de plástico, daqueles que nós em miúdos colocávamos na água, empurrávamos e imitávamos o som de um motor ruidoso, efeito produzido pelos nossos lábios a vibrarem. A felicidade parece ser a mesma. A corrida em direcção ao mar, quase certo, será para aplicar as técnicas de mestre de embarcação, há muito que aguardam pelo momento certo para se mostrarem à comunidade.
A possibilidade e facilidade no acto de comprar, hoje, substituem a participação da construção em comum de embarcações como esta. Aquela que guardo tem uma imagem bem definida nas minhas ideias. A minha mãe não foi à mercearia (um estabelecimento especializado em satisfazer todas as necessidades possíveis de satisfazer) comprar um, não foi a minha nem tinham por hábito as mães daquele tempo. Isto porque o mercado dos brinquedos estava ainda numa fase incipiente e o escasso dinheiro não permitia, pois estávamos na época do sufoco “reestrutural” da democracia e de uma descolonização à pressa, na satisfação de interesses, que deixaram graves problemas de adaptação nos dois lados da fronteira que separa e aproxima os os povos. O não consumismo de minha infância mantinha em nós uma faceta curiosa, pois o entrelaçar das mãos estava mais visível. Quando era possível, as nossas mães ficavam felizes por conseguirem proporcionar um momento diferente aos seus filhos e, estes sentiam-se pequenos príncipes por um dia. Estes momentos foram sendo cada vez mais possíveis, felizmente para a maioria dos miúdos, sinto aqui um vazio por não colocar o pronome possessivo na primeira pessoa do plural, mas em frente, que as memórias também são muito agradáveis. Na idade da segunda ou terceira classe sentia uma certa nostalgia latente nas pegadas incertas daquela idade. Até um certo dia, pensava que todos os miúdos tinham bicicleta como eu. Meu primo EDP, assim lhe chamávamos, pediu para dar uma volta. Eu, contrariado mas a não querer que ele me apelidasse de egoísta, coisa estranha de entender naquele momento, emprestei-lha um pouco cabisbaixo. Logo percebi que a vontade dele em aprender era muita. Na minha cabeça ficou uma dúvida, que foi esclarecida pelo meu avô, sempre atento ao seu primeiro descendente masculino. Explicou-me que se eu tinha era porque a minha família fez no passado alguns sacrifícios e separou-se fisicamente. A bicicleta veio de França em segunda-mão. Mas, a união que existe facilitou as brincadeiras e todos os meus primos lá de casa aprenderam naquela bicicleta.
A partilha, por cultura e por necessidade, permitiram que saibamos a existência de uma faceta interessante dos mais velhos ao imbuírem-se nas ruas, nas conversas (su)reais dos mais novos. A compra facilita. Aproxima no imediato porque a criança tem sempre pressa de colocar em pratica a evolução dos seus conhecimentos e para tal têm de ter à mão as ferramentas necessárias para construírem o seu mundo futurista.
Olhar o Mário despertou em mim algumas questões. Estaremos a esquecer algo? Terei sido o único que teve ferramentas para utilizar no meu mundo de real fantasia, criadas pelas mãos de um ente querido? Sorte a minha…
Penso que não. Será algo que gostamos de acreditar e alcançar numa determinada fase das nossas vidas. Num sábado daqueles em que nos visitamos entre amigos, deparo-me com o avô Joaquim, mestre em tempos na contabilidade de milhões, a plantar couve portuguesa. A minúcia chegava ao pormenor de colocar uma linha recta. A pergunta saiu-me de impulso, plantar couves com linhas? Pois… e nada mais me disse. Rápido percebi que algo mais estava para vir. Nós filhos sorrimos na varanda, aquecida pelo sol do 10 de Junho e refrescados por cerveja também portuguesa, e observámos o neto Gustavo a corrigir o alinhamento do pé torto da couve e a chamar a atenção, pois da próxima não poderia acontecer. Claro está que o mundo com o pé torto ficará coxo irremediavelmente.
O meu barco a vapor, feito da parte de cima de um ferro de engomar virado ao contrário…, ainda existe? Navegava no tanque de lavar roupa, do tempo sem Fagores, Philips ou Candys, e dava voltas sem fim, até que a água do depósito arrefecesse.
Sim ainda existe… acompanha-me nas minhas viagens e hoje quando abri a janela estava ancorado junto a uma bóia ao largo no mar azul à frente da minha varanda. Uma mão grande, calejada e gretada abriu a tampa do depósito e colocou água a ferver.
A mesma mão de sempre…