segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

O Nevoeiro da Raiz


      A briga entre o passado, eu próprio e o presente persiste. Percebe-se em momentos surpresa, mas na maior parte do tempo esconde-se através de um nevoeiro espesso em frente dos meus olhos. E, surge em manobras ziguezagueadas vindas dos cantos esconsos do meu entendimento, empurrando-me para realidades clarificadas que todos compreendemos. No entanto, tenho dificuldade em percebe...r o trajeto para ali chegar e resisto à medida de conservar o conforto daquilo mostrado aos olhos de todos sem buscarmos uma perspectiva própria e límpida de sombras.
      Percorri o caminho de lá atrás até aqui para hoje apoiar os sentidos no discernimento sobre quem somos, de onde venho, para onde me empurram e sobretudo para onde pretendo ir!
      A graduação do meu entendimento tem vindo a elevar-se sem ter dado a importância que se admite. Inicialmente agradeci aos mortos terem-me permitido dar seguimento ao trilho na busca pela iluminação. Agora estou na expectativa, naquele limbo entre o querer e o não conseguir, quantificar a virtude por ter participado na peugada de alguns e ver hoje que, foi um privilégio ter assistido às escolhas e aos receios de vida futura.
      O suor converteu-se em lágrimas escondidas. Aclareou o juízo sobre o que nos move e impele a estar entre dois mundos em dois tempos distintos. A frustração persegue-me desde ontem até hoje, mas ela não sabe que os seus dias findam e a certeza efémera tomar-lhe-á o lugar. A inquietação será o motor para ascender ao patamar seguinte do conhecimento sem esquecer a raiz e sabendo que ninguém sai donde sente paz.
      O regresso vem acontecendo paulatinamente sem eu mesmo saber ou querer saber até onde é possível ir. Sei que devo ir e quero ir. Para onde? Encontrar-me-ei precisamente no lugar onde me sinta eu. E, aí será junto da minha identidade, da língua que entenda, dos olhares penetrantes e justos, da mão calejada pelo pau da vida e das dores partilhadas da alma. Aí estarei…

terça-feira, 20 de agosto de 2013

OPINIÃO - O Esforço pelo Horizonte

 O Horizonte será a linha divisora entre o trajeto traçado e a caminhada a percorrer. Este interregno de tempo é uma incógnita sobre as condições sociais, políticas e económicas de futuro.
           
            É complexo caracterizar uma reflexão irrefutável à eficiências das medidas escolhidas para arrancar o país e a sociedade do mergulho recessivo para o qual (aparentemente) nos dispusemos. Olho o conjunto dos meus compromissos e não encontro ligeireza no comportamento para prever no passado que a atualidade seria de desprezo das estruturas de governo pelos contratos (materiais e sociais) e que, após a abrupta imposição de uma nova realidade, me imputassem uma fatura endossada em segunda instância para o meu nome e que por incúria da política interna e da conjuntura globalizante olhe o espelho e por trás da primeira imagem vejo um infinito de rostos públicos e desconhecidos, totalmente responsáveis, que me empurram para a charneira da fila dos pagantes.
Aguentar é uma característica orgulhosa. A resistência acompanha o povo e se, o esclarecimento imediato pode ser-lhe uma condicionante, já o mediato é  um fortalecimento das fronteiras entre o justo e a usurpação. O constrangimento financeiro dos últimos dois anos ultrapassa as estimativas. Hoje tornou-se insuportável após o desvendar dos lucros com as ajudas dadas por alguns dominantes europeus. A continuidade no caminho restritivo e da acusação de despesismo vai ao encontro de interesses alheios e que estão camuflados pela necessidade de reformas internas.
É incontestável que a gerência das contas públicas beneficiou um grupo restrito sem ponderar a abrangência das perdas. Os poucos que acederam às vantagens procuram distorcer o rosto da responsabilidade. Porem, amanhã olharei o mesmo espelho. Os rostos serão menos desconhecidos e para que tal aconteça estarão implícitas a resiliência e a dúvida sobre o real valor do esforço. O discurso público esvazia-se a cada declaração sem que as reformas em curso se mostrem objetivas. Os retalhos das diretivas do dia-a-dia não estabelecem bases consistentes para o futuro, porque os cortes são seletivos e muitas das regalias e gastos instalados irão manter-se. Tão pouco continuam justificáveis quando a riqueza da nação é escassa e os bons exemplos de outros europeus mostram uma melhor utilização do bem público, demonstrando que o ser dirigente não descende do Olimpo.
A penetração dos interesses externos condiciona as decisões dos nossos dirigentes. No entanto, tudo isto é marcado episodicamente pelo forte descompromisso do cidadão com a representatividade através do direito/poder de voto, tão desprezado com a crescente abstenção e numa aparente ligeireza de comportamento.
É urgente que a participação individual rume no sentido da intervenção pela defesa direta do bem comum e do bom governo, o que naturalmente se traduzirá numa construção coletiva de controlo e fiscalização daqueles que nomeamos para nos representarem.

sábado, 10 de agosto de 2013

O Barbear do Rosto


A reunião de família no mês de agosto é carregada de emoções. Os fundadores deste núcleo de pessoas fora afetado pelas migrações. Estas deslocações para vários pontos do país e da Europa impregnou as nossas vidas com registos culturais que nos afastam da homogeneidade familiar mas que, nos enriquecem enquanto membros isolados dentro desta família.

A troca da boina era um momento rico de amor, partilhado entre as três gerações. Induzia o avô e os netos numa relação de cumplicidade onde o mais velho tolerava com relutância que o despojassem de um adorno acompanhante de um ano e os mais novos encontravam o motivo para darem abraços e se criar o momento desconjuntado de afastamento da dureza de alguma hierarquização no seio familiar e da aproximação por bem.

Não compreendia porque tinha de ser eu a barbear o meu avô quando tinha filhas e genros. Era-me dada a crueza de um ato que temia por considerar não estar à altura do feito. E, a possibilidade de cometer um erro ao deslizar a lâmina pelas rugas era um tormento. Porém a exposição da força humana daquele rosto à acutilância da lâmina era um voto de confiança, de cumplicidade e de grandeza para com o primeiro descente homem. A alvura dos seus pêlos escondiam o tumulto de uma vida na luta pelo legado genético e pela materialização do conforto deixado por herança como fosse esse o objetivo para esquecer as agruras e a inexistência de afetos no seu crescimento. O tormento da fome transformou-se na alavanca que hoje move os viventes que lhes foram próximos.

Tenho presente a imagem por bastião de um ancião no seu trono de pinheiro. Agnóstico convicto de que as ditas patranhas da Casa nada valem, se quem as profere não acreditar que o bem e o mal são a essência da construção humana. Sentado com o seu manto de tecido turco envolto no pescoço aguarda que a espuma se misture com os traços desgastados pelos anos da vida imensa em que, a mão trémula deste neto lhe limpe da face o registo do tempo antigo e lhe possa trazer por algumas horas o rejuvenescimento desse corpo.

A mão trémula de hoje é de saudade e de incapacidade no preenchimento do vazio, relembrado inesperadamente pela trivialidade da extração dos pêlos.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Mundos

     Os mundos que habitam em mim não cabem dentro do meu peito. Libertá-los, é contagiar os membros na caminhada. O trajeto tem amarras aos princípios da integridade que não permitem ao desvio aproveitar-se da fraqueza que envolve o corpo e que, por vezes lhe coloca uma dormência mundana e não lhe afasta a névoa antecessora da aurora. E, para alcançar o crepúsculo é incontornável o uso da força própria do inquebrável estado corpóreo da liberdade interior, da leveza da opinião própria e da resistência à oferta despida e enganadora como sombra flutuante sobre o quotidiano.
     Sentado na Pedra, escuto a pulsação cansada da luta contra os ventos de Norte e de Este. Sinto a respiração ofegante da impotência, marco um olhar fugaz de soslaio e procuro um palmo idêntico ao meu.
     Sentado. Fico e aguardo pelo momento para empurrar a persistência na busca pela moldura certa para expor a frame que carrego...

terça-feira, 2 de julho de 2013

A Luz!


Sinto que não senti no tempo certo algo que se perdeu fisicamente. Hoje, que quero senti-lo não sinto. Existe um vazio de sensação que me faz sentir empobrecido. O seu cheiro existe mas não está aqui. Foi-se para o lugar das sensações da memória onde tudo é imaginado como foi. E, aqui queria saber como foi para agora sentir-me preenchido.

Este vazio que há em mim acompanha-me por destino. Persegue-me por castigo para me obrigar a olhar o horizonte sem (deslembrar) as sombras boquiabertas como marca identitária que teimo em continuar a sentir, mesmo sabendo a dificuldade em encontrar sentimentos nesta caminhada sem sentido aparente.
Saber sentir é uma arte detida por quem olha o trajeto percorrido. Lá no limite da linha sabe... simplesmente sabe que foi para ali que quis dirigir-se e lá vai encontrar preserverantemente a luz!

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Sementes de Cravo


Olhei para a revolução do 25 de abril, um miúdo na data,  a quem dão um presente e lhe dizem que só poderia ser bom e só havia aquele para oferecer.
Durante vinte e cinco anos olhei para a obra e julguei que a geração, minha progenitora, poderia ter ido mais longe e que teria tido a oportunidade de proceder proficuamente. Achei que o facto de os cravos simbolizarem o movimento que arrastou massas se tinha tornado fraco. Por vezes substituí no meu imaginário social o cravo pela rosa na magoada sensação de que uma gota de sangue picado por um qualquer espinho acabaria por provocar o abanão final ao país.
Olhava o horizonte na tentativa de encontrar um vislumbre iluminado. Deparei-me constantemente com grilhões político-sociais de controlo confortante através dos subsídios, de amarras contratuais que subtilmente nos demovem e afastam da participação da vida sociopolítica do país e encarei-me com uma classe, feita, política interveniente ineficazmente que olhou para a aceitação eleitoral, como um objetivo superior, e permitiu esvair-se da clarividência corajosa e de ser capaz previamente de tomar as decisões certas para encarrilhar o Estado na linha onde as agulhas das receitas e das despesas se cruzariam e não chocavam.
O sete e o quinze serão números ditantes de sortes diferentes. O sete será a sombra e o calafrio deste país. Viriato Soromenho Marques poderá equivocar-se e não estaremos a ver o fim da terceira república, a menos que o governo insista em divorciar-se da população. No entanto, o primeiro-ministro alcançou a proeza de unir os trabalhadores, os sindicatos e os patrões contra as suas medidas de austeridade. O quinze é o mais importante. Representa o dia em que vislumbrei as sementes dos cravos e esqueci os espinhos da rosa. As setas contorceram-se em todas as direções e o mundo viu de que fibra é feita este povo. Entre verdades e impropérios o pacifismo popular foi revoltoso. Mãos sensuais mas fortes, sorrisos sedutores mas determinados, pés cansados mas firmes, vozes ensurdecedoras mas conectadas num só sentido presentearam os gigantes históricos que carregamos às costas e honráramos-lhe os sacrifícios na construção e definição da fronteira daquilo que é ser português. É fazermo-nos ouvir e defendermos o nosso retângulo sem projéteis. Aliando atitude a palavras, juntas são uma grande arma em que a língua não é petróleo, é a força persistente que acorda os dormentes e os coloca no combate à incompetência que tem perpassado até ao quotidiano.
Nas palavras de Eduardo Lourenço, é impressionante o caracter pacifico que modificou a atualidade. Demonstrou ser necessário resolver a crise dando um outro sentido de rumo ao país, à europa e se ainda for possível ao mundo. O dia quinze como afirma Freitas do Amaral revela que as manifestações não mudaram o país, financeiramente, mas a classe política (re)tomou a perceção do país interventivo. Terra e povo estão saturados de medidas erradas e desajustadas à realidade nacional em que os governos se sucederam no esquecimento da existência das pessoas (por si só) e estas têm observado as suas vidas serem hipotecadas sob a batuta de um termo (troika) estranho e estrangeiro, qual papão executor da vontade dos dinheiros capitais.
Quinze foi o dia da voz portuguesa soberana que se fez ouvir e se afastou da passividade.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

SUBLIMAÇÃO


Estou numa luta para não escrever uma palavra “feia”… porque quero, mas sinto nas minhas entranhas que esta palavra não preenche os cânones de um enquadramento convencional na transmissão de boas ideias. Nem sempre estamos baseados em algo explicado á luz da boa convivência social e mesmo…

Lutamos por sermos… sermos simplesmente sem subterfúgios, sem imaculadas presenças na vida de outros porque não existimos para sermos outros, não existimos para que nos façam imagens plasticinadas de cores amareladas pelo tempo, que rodopiaram pelo pensamento de um qualquer que pretenda um dom de midas e tocar a magnitude da vida alheia… alheia às pertenções individuais.

Pelas minhas extremidades soltam-se repulsas evaporadas, que exprimidas nada valem, no entanto proferidas por alguém que consideramos ter uma genética quase igual fazem doer. Não uma dor simples e natural, antes aquela que provoca um esfreganço momentâneo… mas que irá perdurar muito mais do que a memória poderá comportar. Será algo, que mastigado não manifestará algum sabor, pois a importância será relativa e nada construtiva.

Tivesse a magnitude capaz de me iluminar simplesmente com um indicador… teria de certo várias cores da imagem que me mostram a negro. Já não me lembro da palavra que serviu de mote para esta dicotomia. Se não há recordação será porque tem um ínfimo valor patrimonial, não confundamos a matéria com outra valia mais profunda!

Tivesse eu a capacidade volátil… alcançasse asas reais, mesmo fustigadas por nuances do enraizado complexo de Édipo e sombreadas pelo ímpeto de Nero, não queimaria nem Roma nem Pavia, não me substituiria por um qualquer pai, reuniria reflexos em retrocesso dos passos calados e quietos de quem premeia a virtude acessível, pouco transpirada, e iria colocá-los às portas de elfos.

Gostaria que a beleza se transformasse numa sensível fertilidade… de exemplos capazes de se envolverem pelos espaços naturais resplandecendo o belo sob a terra, sobre as florestas e que os arqueiros se transformassem nos guias transversais das pegadas que ainda teremos de cravar no solo barrento deste nosso planalto.

Tivesse eu ainda alma neste momento… gritaria alto um murmúrio abafado que escorre pelas artérias, que me faz esmorecer o Cérebro e embeber de compaixão, quando não tenho apetência esclarecida sobre a validade… quem percorre as vãs carreiras hexagonais de um favo de colmeia abandonado nada mais encontra que algo semelhante ao labirinto de Creta.

Encontrei no meu bolso o fio esticado que irá derrotar Dédalo e escapar ao Minotauro… só me resta saber se me está reservado o desempenho de Teseu… e para assim ser capaz de iniciar a fuga às trevas, reencontrar e vislumbrar o renascimento pessoal.

Também neste contexto… eu quero a minha superação, o encontro da verdade e de um opus sublime!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Sobreposição de Elementos


Praia do Zavial - Vila do Bispo - Algarve Portugal

Cascata Perpétua


Fraga da Pena - Serra do Açor - Portugal

UMA VIDA


Uma vida!

Uma vontade!

Uma força revelada num olhar vago de quem procura um sentido onde não é possível encontrá-lo. A esperança não tem aqui lugar.

Não consigo. Não tenho a chave das amarras.

Não posso!

Não quero acreditar numa medida igual. A oportunidade de viver é diferente. Na existência alheia a todas as engrenagens da vida leiloamos os nossos dias numa roleta de pouca sorte. Os ditames traçados vão mais longe do que o entendimento pode alcançar.

O conforto já não é procurado no divino. Porque se existe é cruel. É cruel por fazer sofrer um ser mais do que a sua capacidade aguenta. A conciliação e a pacificação são difíceis. A revolta impotente cresce no olhar. Paira no ar um encerramento de muitos capítulos. Alguns recordados com prazer carregam a saudade e o vazio futuro. As memórias perpetuam antes do tempo em que seriam autorizadas a manifestarem-se.

Temos vida, temos xisto negro, angústia e a areia escorrega para o outro lado da ampulheta. Tivesse eu força e poder para a virar antes do último grão. Conseguisse a metamorfose de mariposa daria a tantos outros a felicidade impossível de ver neste olhar.

Resta… resta muito pouco. Nem a resignação tem lugar aqui.

Não consigo.

Sou impotente perante ela… a última batalha continua a ser dela.

quarta-feira, 11 de julho de 2012

Contorno Perpetuo


Caminho na retaguarda do tempo. Conto as pedras soltas da praia exposta ao mar do norte na tentativa de encontrar o número par, que justifique a minha existência. Ambiciono fugir da tua loucura diária… de colocares tudo nos mesmos lugares de sempre, alinhado por épocas e momentos do menos para o mais importante, como se tudo fosse interligado pela medida ordenada.

Nada pode ficar fora do contorno estabelecido. Nada é uma parte de um todo e nem o teu todo é a súmula das nossas partes.

Mostro na palma da mão uma perspectiva possível do objecto que nos pode unir. É um laço que perpétua a relação e a mantém viva. Pouco vale… há engrenagens. Se virar a mão para te mostrar tudo isso irás ver que virada ao contrário simboliza aquilo que não procuras… pode transformar-se num desalento!

Alimento as energias com a vontade de ir mais além, numa tentativa…, quase frustrada, de saltar a margem e me tornar um persistente nesta sociedade com laivos de perdição individual.

Estes dedos que trauteiam a música que ouvimos juntos querem agarrar algo sólido, que seja possível transformar no futuro sobre a cristalização do passado. Que seja possível representar a fuga evolutiva de tudo o que somos e dos caminhos que tivemos de construir para aqui chegarmos. E olhamos o céu com intenção de lá encontrarmos o guia, de lá vermos o conforto dos exemplos já experimentados.

Sabemos as semelhanças que existem. Sabemos as possibilidades de marcar o presente com os pilares do futuro, no entanto olhamos o céu na esperança de lá vir a sair o escrutínio ideal capaz de nos substituir na reconstrução do futuro, que nossos pés irão pisar.

Fecho o punho. Escondo uma imagem que não conheço. Vasculho as memórias. Transporto-me psicoticamente neste vaivém de tentativas. Nada me é familiar. Nada me surge ordenado e tudo se atira a mim como inimigo do conforto das representações do quotidiano. Desmanchou-se o exército de terracota. Alguns pedaços de barro têm as arestas cortantes. Parece defenderem-se da mão grande sobranceira. Olho dentro deste cenário como um estranho que tropeçou nele e por nada se compromete com a reconstrução do trilho.

A linha longínqua que imagino ver no horizonte (de olhos fechados nada vejo e tudo posso criar) torna-se rapidamente na âncora do desejo frenético de sair a galope e sorrir.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 15

TELEVISÃO
As manifestações de curiosidade mostram-se de variadíssimos modos. Desde o inicio da humanidade que o homem tem procurado satisfazer as suas necessidades através dos recursos existentes. Quando são insuficientes ou mesmo incapazes de proporcionar-lhe o alcance desejado, recorre à sua criatividade e reinventa os utensílios e equipamentos as vezes necessárias até conseguir atingir a sua meta.

A imagem, rápido se tornou o ícone que melhor favorece o registo da pegada humana sobre o planeta. As pinturas rupestres são importantes para a interpretação e compreensão do que moveu o homem a fazer representações de grandes animais, da caça e de rituais de dança. Permite-nos a aproximação a estas sociedades primitivas que tinham um modo de vida muito diferente da atualidade. Hoje é-nos difícil viver sem um conjunto de equipamentos a que nos habituámos e que fazem parte do quotidiano. Falo de entre outros da televisão.

A análise do comportamento do homem durante a passagem do tempo obriga que consigamos contextualizar a sociedade mediante o seu desenvolvimento olhando também para os recursos que tinham à sua disponibilidade. Não sabemos em concreto como o homem ocupava o seu tempo total. Sabemos que não tinha janela virada para o outro lado do mundo nem a cores nem a preto e branco. Sabemos que a projeção de imagens e a televisão trouxeram uma outra velocidade ao conhecimento. A leitura como janela de descoberta do mundo e os contos de boca em boca deram lugar à imagem viva, rodada nas frames e posteriormente apresentada no pequeno ecrã com ou sem retoques de efeitos especiais.

Na memória ficaram pequenos momentos marcantes para uma geração. A parede da igreja matriz serviu algures nos anos cinquenta do século XX para receber a projeção de filmes. Dizem que o Halibaba e os seus quarenta ladrões saltaram dunas e fecharam portas através da parede da sacristia. Onde hoje jaz o café Marialva improvisava-se a plateia para assistirem num género de “Drive in” beirão a autênticas estreias cinematográficas impulsionadas por um clérigo de quem não souberam dizer-me o nome.

No circuito de desenvolvimento Adolfo Vieira de Brito contribuiu com o primeiro televisor. Este foi um grande acontecimento de viragem nos hábitos da população. Como disse, a curiosidade é intrínseca à condição humana. Rapidamente o televisor se tornou uma atração, que se espalhou pelas povoações em volta da Casa do Povo de São Pedro de Alva. Diz-se que o Bonanza tinha apoiantes nas suas cavalgadas, que sem grandes efeitos cinematográficos conseguiu espicaçar a mente dos mais novos. Muitos por necessidades básicas de sobrevivência, partiram também eles na sua cavalgada. Não tanto por terras americanas mas antes para terras dos desfeitos impérios europeus, necessitados de mão-de-obra e força de braços e para terras africanas sem necessidade de derrame de sangue inocente e desconhecedor da dura realidade dos trópicos, muito diferente de qualquer safari mostrados nos atuais canais generalistas de televisão.

A mudança resultou dos horários da emissão. Não era alargada a todo o dia no entanto conseguia mover a população. De tal modo que os trabalhos sazonais e de troca direta em que todos participavam nos trabalhos de todos num género de comunidade de trabalhos agrícolas foram relegados para segundo plano. No período em que a emissão estava no ar deixou de haver interesse nas descamisadas, filhoses com mel dadas pelo dono do milho e noutros atrativos gastronómicos. O convívio sofreu alterações. A alegria simbolizada hoje pelo rancho folclórico foi lentamente substituída pelas comédias mais ou menos sérias que saltavam do pequeno ecrã. A realidade dos beirões começou a ser confrontada com outras realidades existentes, desconhecidas em grande medida até ao momento, e que lhes eram apresentadas pela programação onde se incluía o serviço noticioso. A distância parecia muito maior do que hoje é e para tal contribuía também a dificuldade que era imposta pelas acessibilidades.

Continuando na linha do desenvolvimento os Café Neves e Marialva tiveram um papel importante na fases seguinte. Olhando para o seu interior percebia-se a que classe social pertenciam os seus clientes. Ambos, fechados atualmente, apresentaram novidades à população. A famosa bica era vendida e partilhava o seu espaço com o velho copo de 2 ou 3 tirado da pipa de carvalho atrás do balcão. Ainda não existia a ASEA, não que queira dizer que a higiene não estava de acordo com requisitos de um estabelecimento comercial mas antes, que os hábitos de comércio eram diferentes e as regras eram outras.

A televisão estava presente nos dois estabelecimentos. Foram colocadas numa posição sobranceira às cabeças das pessoas sentadas e desejosas de que começasse a sua série preferida. Recordo-me, nos anos oitenta dos Três Duques, do Dallas, etc. Por vezes não havia unanimidade no canal, mesmo quando só eram dois mas o que importa é que a caixinha já fazia parte de todos.

O que começou por ser uma unidade é hoje uma quantidade diferente em cada habitação. Pode haver uma só ou várias espalhadas pelas diferentes assoalhadas. Neste contexto um ponto importante é fazer referência à TDT (televisão digital terrestre). O amadurecimento da tecnologia chegou a um estádio em que todos somos afetados. O velho sistema analógico de difusão vai ser substituído pela difusão digital e quem quiser continuar a ver os seus programas preferidos terá de acompanhar o desenvolvimento da caixinha. Se não tem televisão a pagar seja por cabo ou por satélite terá de efectuar as alterações convenientes e que podem passar pela compra de equipamentos que façam a descodificação para os aparelhos de televisão que cada um possua em casa e que não tenham vindo de fábrica preparados para a TDT.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA - 14

Biblioteca Itinerante

As feiras do livro colocam-nos em contacto com as novidades literárias e também permitem ao leitor aproximar-se de alguns escritores. A mística que separa a escrita do seu autor é encurtada pelas várias sessões de autógrafos porém alguns escritores necessitam do distanciamento para assim conseguirem alcançar o pleno prazer e empenho nas suas letras. Os livros serão sempre o resultado de tudo isso embora sinta que a relação autor – escrita – leitor esteja a desprezar a componente do autor. Encontramos cada vez mais cópia, plágio e usurpação de autoria.
Tenho também dificuldade em compreender o porquê da ação do homem quando vejo livros a serem despojados do seu real valor quando são abandonados no papelão para reciclagem. Assim, a sua missão de registo de pensamentos e da evolução humana perde-se. Ficam esquecidos à espera de serem transformados em papel de embrulho ou em caixas para mudanças.
 A origem do livro antecipa-se à antiguidade clássica e permitiu à escrita alcançar o leitor de um modo mais fácil em fazer e transmitir a mensagem. Poderemos dizer que as tabuletas de argila ou pedra foram os precursores do livro? Certamente foram os primeiros suportes da escrita. No entanto os Volumen, cilindros de papiro, são o primeiro formato assemelhado a um livro que, ao ser desenrolado, permitia a leitura do seu conteúdo e poderia atingir sete metros de comprimento.
O pergaminho, couro de bovino e de outros animais, foi inventado na cidade de Pérgamo na Ásia menor. Veio substituir o papiro e o seu uso atravessou a Idade Média. A sua maior resistência permitiu o desenvolvimento do formato Códex que substituiu o Volumen. O livro tornou-se um conjunto de folhas mais fáceis de costurar em couro.
Ao Ts’ai Lun, alto funcionário da Corte chinesa do imperador Chien-Ch’u da dinastia Han (206 AC a 202 DC), é atribuída a invenção do papel no ano 105 DC. Foi matéria conseguida através do esmagamento e cozimento de fibras. A introdução na Europa desta nova superfície de trabalho está relacionada com um rapto executado por Árabes a dois chineses que, em troca da sua liberdade, revelaram o segredo que tinha seis séculos. Os europeus começaram a utilizá-lo dez séculos depois da sua invenção.
O novo formato de livro surgiu da década de 70 do século XX. Michael Hart é conhecido por ser o fundador do projeto Gutemberg. Consiste em tornar os tradicionais livros em formato digital. O primeiro texto digitalizado foi a Declaração de independência dos Estados Unidos da América. Recentemente a empresa Apple lançou no mercado de equipamentos electrónicos de uso individual o Ipad onde num espaço de uma palma da mão podemos armazenar uma biblioteca. No entanto, o trajeto que a criatividade humana percorreu na satisfação das suas necessidades, fruto da sua própria evolução, comporta um conjunto de etapas antecedentes e importantes para hoje conseguirmos virar uma página com um simples gesto de arrastar uma imagem num monitor. De entre estas etapas poderemos incluir o projeto da Fundação Calouste Gulbenkian de levar até junto de todos os carenciados no último quarto de século XX, o bem precioso de leitura a custo zero para o leitor. O interessado poderia às quintas-feiras, se a memória não me engana, deslocar-se junto da escola primária e aguardar durante a tarde que chegasse a carrinha Citroen de faróis redondos, cor de tijolo e de laterais caneladas. De lá de dentro saltavam histórias e todo um mundo de lugares e regiões que, provavelmente não terei oportunidade de visitar mas que me eram apresentadas na experiência vivida, descrita ou inventada pela mão de génios, candidatos a ídolos tal como Herger e a sua obra Tintin ou mesmo Julio Verne e as suas viagens. Encontrávamos também os clássicos da literatura portuguesa e internacional. O motorista no momento em que abria a porta da sua Biblioteca Itinerante transformava-se numa espécie de Atticus, o homem romano com grande sensibilidade para o mercado das obras literárias, que no caso português tinha a afectividade e a proximidade para disponibilizar livros de acordo com o interesse de cada cliente. O preço era o laço que se estabelecia entre o funcionário e o leitor em que este, se comprometia a devolver o livro nas mesmas condições de manuseamento em que o recebeu e no prazo estabelecido, podendo sempre ocorrer um prolongamento se fosse oportuno.
Na feira do livro de Lisboa do ano passado fui assaltado no pensamento por uma recordação ao ver novamente a mesma carrinha Citroen no centro da cidade em que o Atticus era uma Senhora sorridente com a dupla função de apresentar para venda as obras editadas pela Fundação Calouste Gulbenkien e de refrescar a memória das pessoas ao expor a viatura, ícone de uma geração e do povo do interior português profundo onde as bibliotecas escasseavam assim como, a capacidade económica para considerar o livro um bem essencial à vida quotidiana.
É impossível fisicamente vermos Steve Jobs sentado na Citroen a abrir-nos a porta com a sua invenção por catálogo na mão mas poderemos visualizar que é possível o Ipad transportar até às gerações vindouras a missão de registo de todo o trajeto evolutivo das espécies.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Publicada no Jornal Nova Esperança - 13

O JORNAL DO TEMPO
 

O tempo tem algo em si efémero quando passa rápido. É recorrente pois nele temos de fazer e refazer o quotidiano como se fosse uma luta de avanço – retrocesso – evolução. É também eterno. Percorremos a sua linha e só vislumbramos o segmento de recta onde nos encontramos… do lado de cá da linha do horizonte. Perdidos?...

Por vezes é essa a sensação de perdidos na imensidão do tempo a viver os segundos como se fossem as partes mais importantes e existentes entre os ponteiros do relógio.

Nas conversas saudosistas podemos descobrir postais ilustrados do passado que se revelam preciosidades.

Decorreu meio século… quem o viveu afirma ter passado rápido. Muito mudou. Algures no tempo a vila era percorrida por bicicletas e talvez um automóvel. Sentado no chafariz, com tantas recordações impregnadas no velho granito, olho em volta e não há espaço disponível para tanto automóvel. Fazem falta as bicicletas características da vila… o tempo corre…

As memórias por vezes dão sacudidelas dentro do baú onde as guardo… “o autocarro das 13 horas pára em frente do Café Neves. Enquanto os barulhentos passageiros se empurram para sair, o motorista atira o rolo de jornais. Notícias frescas”, dizia… Algumas vezes encharcadas pela chuva. Olho em frente e vejo a primeira papelaria da vila ainda aberta. Provavelmente a D.ª Arminda estará à espera do fim do dia para tirar as molas das revistas e regressar a casa. Recebia sob encomenda o jornal “Blitz”. Dois exemplares, um para mim, outro para o Mendes. Sentíamos a música estrangeira. Lia-se e desejava-se poder ouvir… As minhas bandas começam a ter alguma idade. Poucas se salvaram das garras do tempo empoeirado.

As teias de aranha nas janelas das casas fechadas estão mais amarelas. Alguns rostos deixaram de aparecer no adro. O silêncio nocturno propaga a sua existência pelas ruas iluminadas. A luz, que à noite poucos utilizam, ilumina as pisadas do tempo rodado no relógio, que apagou do quotidiano o murmúrio do convívio social.

O fantasma da noite apoderou-se das sombras que parecem ser os únicos vagueantes no centro. Noutros tempos as sombras escondiam-se para darem lugar aos transeuntes perturbadores de sonos leves. O tempo mostra-se agora mais passivo apresentando a noção de que é mais longo e de que temos… mais tempo. Engano?...

Um talvez não é suficiente quando olhamos o tempo percorrido e nele encontramos traços de pegadas que ainda reconhecemos. Não é suficiente quando corremos para um espaço que ao longe se ilumina porque queremos estar lá e quando nos aproximamos vemos a luz a enfraquecer e cresce-nos a sensação de perdido, confundido pela certeza de ser aquele o seu aposento. É engano quando o tempo esconde o passado sob um presente que parece em tudo diferente. Luto por não desconhecer esta realidade e tento acompanhar com um sorriso.

Hoje sentado, na pedra onde sempre me sentei, transporto-me sobre esse segmento de recta até à direita do futuro. Faz-me acreditar que é possível continuar a redefinir as recentes pegadas.

O “Blitz” já não é jornal, é revista. As bicicletas foram substituídas por automóveis. Os rostos mais velhos retiraram-se, mas a pedra continua polida e daqui é possível um olhar de 360 graus.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PUBLICADA NO JORNAL NOVA ESPERANÇA 12

Praia da Foz do Alva

A água corre lenta sem vontade de alcançar o seu destino e a vida vai a galope agarrada à crina do nosso desalento ao olharmos o futuro próximo sem um vislumbre agradável daquilo que nos espera. O desnorte ganha forma todos os dias. Já é possível dizer-se todo o tipo de barbaridades sobre a matriz do povo e do Estado-nação vivo, mas adoentado a quem querem arrancar pedaços aos seus pilares e, supostamente, verem desmoronar-se. Os que estão fora aguardam abutremente. Os que estão dentro reviram o branco do globo ocular na procura tresloucada de justificar a responsabilidade noutros costados. De repente o que é nosso tem valor e venha de lá o comprador de produtos nacionais.

Certo… por um flash das recordações daquelas mais remotas e escondidas trago à conversa momentos alegres, quando não havia carro em casa, quando não sabia o que era uma agência de viagens e que julgava não conseguir viajar de avião. As férias faziam-se em troca de espaços com familiares das grandes cidades e vice-versa. Olho para a distância tempo como sendo uma eternidade percorrer o que se consegue em duas horas pela autoestrada.

Em dia de semana nos meses de verão o primeiro autocarro da manhã transportava-nos para além da nossa fronteira diária como se fossemos dar a volta ao mundo no entanto, só dobrávamos a esquina remota da serra. As mulheres levavam as trouxas de roupa à cabeça e os homens o cesto do farnel ao ombro. Eu seguia pela mão disponível. Recordo-me que detestava os pacotes de 100ml de leite com morango. Ainda hoje é-me impossível o cheiro. O preço mais barato obrigava à compra. Decerto havia mais quem não gostasse porque estava sempre mais barato. Era raro conseguir do orçamento um pacote de waffles cobertos com chocolate e que tinham um pacote dourado.

O autocarro começava a rolar às sete e quinze minutos e nós esperávamos á entrada da vila. Por vezes parecia uma sementeira de cogumelos pois, ainda era época de colocar carga na grelha do tejadilho. Naquelas manhãs não havia birra nem sono. A descida para o rio era empolgante. A paragem depois da ponte era apertada e mal permitia a saída. O trânsito parava, o motorista resmungava porque tinha de subir e atirar as trouxas da roupa. Sentia pressão por as restantes viaturas estarem bloqueadas.

O rio estava já ali mas era impossível saltar logo lá para dentro. A água estava ainda gelada e tínhamos de ajudar a encontrar a melhor pedra para que a roupa fosse lavada rapidamente e as mulheres pudessem refrescar-se a meio da manhã nas águas límpidas e despoluídas do Alva. Os homens procuravam lenha nas bermas do rio e preparavam uma fogueira para quando fosse hora a acenderem e fazerem os grelhados. Alguns arriscavam e só comiam o que pescavam. Nem sempre os dias eram de fartura.

O melhor lugar para dar saltos era debaixo da velha ponte que ruiu por incúria técnica e por falta de manutenção durante a construção da nova estrada. O pedregulho ficou para sempre escondido. Era o local onde se saltava e á noite se contavam estrelas. Era um ponto de convívio da Beira Litoral Interior. As dificuldades de orçamento familiar não permitiam ambientes luxuriantes. O descanso era alcançado através de espaços naturais, por vezes perto da habitação. Onde hoje, provavelmente, existem pedras sujas e abandonadas perpetuaram-se momentos de cariz naturista, natural e normal por uma comunidade, que caminhava há trinta anos para uma abertura compassada e pouco preocupada com as dificuldades deste nosso quotidiano. Forçosamente prescrevo uma realidade adversa a futuros caminhos delirantes e autistas. Saudosamente deverei percorrer caminhadas a tentar colocar os meus pés sobre pegadas sólidas na tentativa de encontrar as pedras onde outrora as nossas mães colocaram roupa ao sol, enquanto nos atirávamos para a água corrente.

O enrolar das trouxas representava o regresso ao ponto de partida. Hoje o retorno à circunstância dessa época será penoso e obrigará a um refazer mental da realidade e à reposição concreta do quadro social, do qual ao sairmos deveríamos ter tido a preocupação de não subjugarmos o futuro a uma vontade que nos é alheia.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A IMPORTÂNCIA da DEMOGRAFIA do CONCELHO de PENACOVA

            Compreender um concelho e a sua realidade demográfica comporta a necessidade de um conhecimento concreto e aprofundado da sua população. Consequentemente, a sua estratificação, evolução e características sócio-culturais obrigam a fazer-se um enquadramento em perspectiva do seu crescimento na região onde está inserido.
O estudo sobre uma população encontra o seu produto no número total de indivíduos (homens e mulheres em conjunto e em separado), nos grupos etários (jovens, adultos e idosos), nos nascimentos, óbitos, fluxos de imigração e de emigração. Daqui resulta a análise que permite, através de cálculo de taxas, índices e saldos, perceber quais as dinâmicas existentes na interacção dos indivíduos da população. Isto faculta a construção de possíveis cenários, que podem dar um bom contributo na tomada de decisões sobre caminhos a seguir no encontro da satisfação das necessidades da vida e do conforto das comunidades. Assim como, contribuem positivamente no apontar de um melhor curso do plano estratégico para que, no momento final, seja alcançada a eficiência e a eficácia da utilização dos recursos pois, como sabemos, são insuficientes.
População Penacova
Baixo Mondego Nut II

Total
Homens
Mulheres

1970
17278
7190
9150

1981
17351
8120
9263

1991
16748
7657
8707

2001
16725
7636
8514
340309
2011
14980
6984
7996
335399
O total de população de Penacova desde os últimos censos tem sido inferior a 20000 indivíduos. A tabela apresentada demonstra que o concelho teve um ligeiro acréscimo de população entre 1970 e 1981. Neste período estão incluídos dois acontecimentos excepcionais, que influenciaram as dinâmicas da população. O primeiro refere-se ao fluxo de entrada de população vinda dos territórios ultramarinos e o segundo refere-se à última grande vaga emigratória, principalmente para a Europa. No entanto o saldo foi reduzidamente positivo. Contabilizando os nascimentos vivos e os óbitos existiu um aumento de 73 indivíduos. Após um decréscimo de 600 indivíduos, existiu nos dez anos que sucederam alguma estabilização. Os dados preliminares dos Censos 2011 estão ainda pouco trabalhados, no entanto permitem perceber que ocorreu uma diminuição da população em 10,4% entre 2001 e 2011. Este valor revela-se preocupante sobre a questão da desertificação do município. O concelho de Penacova (Nut III) insere-se na Região Centro – Baixo Mondego (Nutt II) e esta perdeu, entre 2001 e 2011, 1,44% da sua população. Assim, verifica-se que Penacova não está a fomentar atractividade na fixação da sua população. Os movimentos pendulares, que representavam grande parte das movimentações da população para Coimbra, tornando os concelhos limítrofes regiões dormitório, não estão também a promover a fixação da população de Penacova. Os dados definitivos dos Censos 2011 irão permitir perceber concretamente as causas deste valor negativo. Será também possível saber qual a evolução da pirâmide etária do concelho. Sabe-se que em 2001 a pirâmide tinha a sua base mais estreita que o centro. Significa que a reposição das gerações não está a acontecer. Ocorreram menos nascimentos e a esperança média de vida aumentou nas mulheres de 80,8 em 2001 para 81,6 anos em 2007 e nos homens de 74,3 em 2001 para 75,5 anos em 2007. Significa que a população está a envelhecer. A soma da população jovem com a população idosa representava em 1970 41% e em 2001 34,1% do total. Estes dados são enganadores, pois sabendo que o número de nascimentos vivos por mil mulheres com idades entre os 15 e os 49 anos reduziu de 73,24 em 1970 para 36,63 em 2001, será muito importante analisar os dados finais dos censos de 2011 e verificar se tendência é de redução. A verificar-se esta situação é previsível que antes de 2050 a pirâmide tenha o aspecto de um cogumelo e isso será a prova de que o estrangulamento na base produzirá efeitos de futuro muito prejudicais na estrutura populacional, social e económica.
A pirâmide etária da população de Penacova tem as características de um país desenvolvido em que naturalmente a taxa de natalidade é reduzida, o número de adultos é superior aos jovens e a esperança média de vida é grande. Estes valores acarretam um esforço sócio-económico maior porque o envelhecimento da população aumenta os encargos com reformas e pensões e faz aumentar as despesas com a saúde. Em consequência da redução de nascimentos, o grupo etário dos adultos sofre uma sobrecarga pois é a parte activa da população. Por fim a sociedade perde dinamismo por não conseguir efectuar a reposição das gerações.
Oportunamente os censos de 2011 serão a fonte de informação que ajudará à confirmação de tudo o que foi apresentado e darão um óptimo contributo no encaminhamento das decisões sobre a promoção de medidas de combate ao envelhecimento da população.

PAULO CUNHA DINIS